Rastros no Concreto
O relógio digital sobre a bancada da cozinha marcava 47 horas e 12 minutos. O número, um brilho vermelho e agressivo, pulsava no escuro do apartamento de Beatriz como um batimento cardíaco artificial. Ricardo Viana não havia apenas ameaçado; ele havia cronometrado o fim da existência de Sofia Lemos.
Beatriz não trocou de roupa. O casaco pesado, ainda úmido da chuva de São Paulo, servia como uma armadura improvisada contra o frio que subia do piso de madeira. O livro-razão, escondido contra seu corpo, parecia pulsar com o peso das vidas que ele destruíra. Ela sabia que o apartamento estava grampeado; cada movimento seu era um dado para os algoritmos de Ricardo. Ela não podia mais ser a herdeira negligenciada que observava de longe. Ela era agora o alvo principal.
Ela saiu sem olhar para trás, descendo as escadas de serviço. O som da chuva contra o metal do duto de ventilação era um ruído branco que mascarava seus passos. Ao atingir o subsolo, o farol de um sedã preto cortou a penumbra. Ricardo não estava ali pessoalmente, mas seus cães de guarda estavam. O carro bloqueou a saída da garagem, os pneus cantando contra o concreto molhado. Beatriz não hesitou. Ela não tinha tempo para o medo, apenas para a logística da sobrevivência. Ela deslizou por uma fresta no portão de carga, sentindo o metal rasgar a manga de seu casaco, e mergulhou na neblina da Marginal Pinheiros. O custo de sua liberdade era a sua segurança; ela agora era uma fugitiva em sua própria cidade.
Às 17h55, cinco minutos antes do fechamento, ela entrou na agência bancária no Itaim Bibi. O gerente, Marcelo, um homem cujos ternos custavam mais que o carro de Beatriz, bloqueou o acesso ao corredor das salas de custódia.
— O senhor Viana foi claro, Sra. Lemos. A conta está sob bloqueio judicial. Nenhum item será retirado.
Beatriz sentiu o ar rarefeito. Ela não tinha autoridade, mas tinha a arma que Ricardo temia. Ela se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Marcelo, forçando-o a recuar.
— O senhor está na página 42 do livro que eu tenho aqui, Marcelo — ela disse, a voz cortante, sem tremores. — 'M. S. - Compensação por consultoria jurídica indevida'. Se eu entregar este livro à Polícia Federal, o senhor não será apenas um gerente cumprindo ordens. Será um cúmplice em um esquema de lavagem de dinheiro que envolve o judiciário. Escolha: o seu emprego ou a sua liberdade.
Marcelo empalideceu. O silêncio foi preenchido apenas pelo som da chuva contra o vidro temperado. Sem uma palavra, ele destravou o acesso. O cofre de Sofia não guardava joias. Continha um gravador digital e uma pasta de documentos. Beatriz pegou o dispositivo, mas ao consultar o terminal do gerente, o choque foi visceral: uma liminar emergencial, assinada há menos de uma hora, antecipara a audiência de sucessão. O prazo não era mais de dois dias. Era de apenas vinte e quatro horas.
Escondida em um café 24 horas na Consolação, Beatriz conectou os fones. A voz de Sofia surgiu, carregada de um pavor contido.
— Se você está ouvindo isso, Bia, é porque o livro-razão chegou às suas mãos. Eles acham que você é a 'herdeira errada', a que não tem estômago para o jogo. Eles subestimam você. Eu não fugi. Eles me levaram. O 'tio' Ricardo não agiu sozinho. Ele precisa da assinatura que valida a mentira. Ele está usando o juiz, o mesmo que encabeça o processo de sucessão, para garantir que tudo pareça legal.
Beatriz sentiu o sangue gelar. O 'tio'. A hierarquia dos Viana era mais profunda e podre do que ela imaginara. Ela abriu a pasta de documentos e comparou a assinatura no rodapé da liminar com o nome citado na gravação. O juiz responsável pela sucessão era o mesmo homem que assinara a ordem de busca contra ela. Ela estava institucionalmente encurralada. O relógio na parede do café parecia avançar mais rápido, cada segundo subtraindo sua chance de sobrevivência.