Novel

Chapter 3: O Relógio Acelera

Beatriz retorna ao seu apartamento revirado e é confrontada por Ricardo Viana. Ele revela que a audiência de sucessão foi antecipada para daqui a dois dias, encurtando drasticamente o prazo de Beatriz. Ricardo oferece um acordo: a localização de Sofia e a limpeza do nome do pai de Beatriz em troca do livro-razão.

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O Relógio Acelera

A chuva de São Paulo não lavava nada; apenas empurrava a fuligem das avenidas contra as janelas do meu apartamento, transformando a cidade em um borrão cinzento de indiferença. Eu subi os degraus de dois em dois, o coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado. O livro-razão, pesado e frio dentro da mochila, parecia emitir um calor radioativo contra minhas costas. Arnaldo tinha sido claro: minha reputação profissional estava em frangalhos, um sacrifício necessário para provar que aquele documento não era uma falsificação, mas a confissão de culpa de uma dinastia.

Ao girar a chave, um clique metálico — estranhamente nítido apesar do temporal — ecoou pelo corredor. Congelei. A porta estava entreaberta. O apartamento, meu único refúgio, fora revirado com uma precisão cirúrgica: gavetas arrancadas, o colchão rasgado, os livros de contabilidade espalhados pelo chão como entulho.

— Você demorou, Bia — a voz veio das sombras da cozinha, calma, quase entediada.

Ricardo Viana estava sentado em uma das minhas poltronas, a silhueta recortada pela luz pálida da rua. Ele não parecia um invasor; parecia o dono da casa. Eu recuei, a mão instintivamente buscando a mochila.

— A polícia chegará em dez minutos, Ricardo. Eu fiz as chamadas — menti, a voz trêmula, mas firme.

Ele soltou uma risada seca, levantando-se devagar. O terno impecável contrastava com o caos ao redor.

— A polícia? Em São Paulo? Você sabe que eles não sobem ladeiras onde os Viana mantêm o asfalto. Mas vamos pular o teatro. Você tem o livro. Eu sei que tem. E, francamente, ele é um fardo que você não consegue carregar por muito mais tempo. Ele caminhou até a janela, observando o dilúvio. — A audiência de sucessão, aquela que você esperava que ocorresse em doze dias? Foi antecipada. O juiz assinou a ordem hoje à tarde. Temos dois dias, Bia. Dois dias antes que a morte da Sofia seja declarada oficialmente e tudo o que ela lutou para esconder se torne patrimônio da família. Ou melhor, meu patrimônio.

O chão pareceu ceder sob meus pés. Dois dias. O cronômetro que eu acreditava ser um aliado havia se transformado em um carrasco. Ricardo virou-se, seus olhos brilhando com uma frieza calculada.

— Eu não vim aqui para te ameaçar, Bia. Pelo contrário. Eu vim oferecer um acordo. O livro-razão expõe o meu tio, não apenas a mim. Se você me entregar o livro agora, eu não apenas limpo o nome do seu pai, como te dou a chave para a verdade sobre o desaparecimento da Sofia. Eu sei onde ela está. E sei por que ela fugiu.

Ele estendeu a mão, não em um gesto de agressão, mas de negociação. Era o dilema moral que eu mais temia: a verdade sobre Sofia em troca da única arma que eu tinha contra o império que a destruíra. A chuva batia contra o vidro, abafando o som da minha própria respiração, enquanto o silêncio no apartamento se tornava insuportável. Eu olhei para a mochila, depois para Ricardo, sentindo o peso da minha própria sobrevivência contra a justiça que eu devia a Sofia. O relógio, invisível mas constante, parecia tiquetaquear em cada gota de chuva que escorria pela vidraça.

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