O Preço da Verdade
O apartamento de Beatriz, no centro de São Paulo, parecia ter encolhido. O tamborilar da chuva contra o vidro não era melancólico; era um metrônomo implacável. Faltavam onze dias e vinte horas para a declaração de morte presumida de Sofia. Sobre a mesa de jantar, o livro-razão repousava como uma granada sem pino. A capa de couro surrado, manchada por décadas de manuseio, escondia a arquitetura de um império construído sobre subornos e crimes ambientais, com o nome do pai de Beatriz gravado em cada transação de propina.
Beatriz abriu a página 42. A caligrafia de Sofia, minúscula e precisa, ligava cada desvio de verba a um projeto de infraestrutura que devastara reservas protegidas. Se ela expusesse aquilo, destruiria Ricardo Viana, mas o estilhaço daquela bomba cortaria sua própria família. O pai dela não era apenas um cúmplice; ele era a engrenagem que permitira a lavagem de dinheiro. Ela tentou decodificar a série de entradas, mas os códigos de contabilidade forense eram impenetráveis. Eram algoritmos de ocultação que só um veterano do sistema financeiro dos Lemos conseguiria traduzir. A polícia não era uma opção; ela precisava do Sr. Arnaldo.
O encontro no 'Café do Submundo', na Rua Direita, foi um exercício de humilhação. O cheiro de mofo e café queimado era sufocante. Arnaldo, um homem cujas mãos tremiam mais pela culpa do que pela idade, não olhou para o livro quando Beatriz o deslizou pela mesa de fórmica.
— Eu sabia que esse registro existia, Bia — a voz dele era um sussurro rouco. — Sofia me procurou meses atrás. Ela queria entender por que as contas de drenagem não batiam. Quando percebeu o tamanho do rombo, parou de me procurar e tentou um advogado. Depois, ela simplesmente deixou de existir.
Beatriz sentiu o sangue gelar. — Preciso que autentique estes dados. Preciso saber se o envolvimento do meu pai é real ou se é uma manobra de Ricardo.
Arnaldo ergueu os olhos, vidrados pelo terror. — Eu te ajudo, mas o preço não é dinheiro, Beatriz. Você quer a verdade? Então entregue a sua. Exponha o erro que você cometeu na consultoria há três anos. Aquele que você escondeu para manter sua licença. Se eu vou cair, você cai comigo. O mundo precisa saber que a 'Lemos honesta' também tem sangue nas mãos.
Beatriz sentiu o peso da escolha. Sua reputação profissional era sua última armadura. Ela olhou para o contador e, com um aceno quase imperceptível, aceitou o custo. Arnaldo abriu o livro, seus dedos traçando as linhas. — É real. Fatalmente real. Ricardo não apenas sabia; ele orquestrou. Sofia não desapareceu por acaso; ela foi apagada porque os números dela eram a forca dele.
De volta ao apartamento, a paranoia a aguardava. Uma luz estranha, um brilho verde intermitente vindo de trás do espelho decorativo, capturou sua atenção. Beatriz parou. Atrás da moldura, um fio fino serpenteava até a tomada. Uma escuta. O pânico não veio como um grito, mas como um frio paralisante. Cada passo, cada respiração, cada descoberta estava sendo transmitida para Ricardo. O prazo de doze dias não era apenas uma questão jurídica; era o tempo que restava para ela ser silenciada.
Ela correu para o celular, tentando apagar os rastros digitais da conversa com Arnaldo. O aparelho vibrou. O nome de Arnaldo brilhava no visor.
— Arnaldo? Eu já limpei tudo, ninguém vai saber que nos falamos — ela sussurrou.
— Eles sabem, Beatriz — a voz do contador era um fio de ar. — Você abriu uma caixa que não deveria ter sido tocada. O tempo acabou para mim. Esconda esse livro, ou queime-o. É a única forma de sobreviver.
— Onde está a Sofia? — Beatriz exigiu, a urgência sobrepondo-se ao medo.
O contador desligou. O silêncio tornou-se absoluto. Beatriz caminhou até a janela. Lá embaixo, através da cortina de chuva, um carro preto estacionou lentamente em frente à sua casa, os faróis desligados, vigiando a entrada como um predador à espreita.