Novel

Chapter 1: O Eco nas Paredes

Beatriz Lemos infiltra-se na mansão dos Lemos sob uma tempestade para buscar pertences de Sofia, mas descobre um livro-razão escondido atrás de um painel na biblioteca. O documento revela um esquema de corrupção envolvendo a família Viana e, devastadoramente, o pai de Beatriz. O relógio marca 12 dias para a sucessão legal, e Beatriz agora carrega a prova que pode destruir o império de Ricardo, mas que também a coloca na mira direta do antagonista.

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O Eco nas Paredes

A chuva em São Paulo não caía; ela golpeava o casarão dos Lemos com a força de quem tenta apagar uma mancha de sangue no asfalto. Beatriz Lemos ajustou o casaco, o tecido encharcado pesando sobre os ombros como uma sentença. Ela não queria estar ali. O ar da mansão cheirava a cera, hospital e segredos mal enterrados. No saguão, o pêndulo de bronze do relógio de parede oscilava com uma precisão sádica. Doze dias. Doze dias até que a declaração de morte presumida de Sofia se tornasse irrevogável, entregando o império familiar — e todos os seus cadáveres financeiros — às mãos de Ricardo Viana.

— Você está atrasada, Beatriz. E, como sempre, visivelmente deslocada — a voz de Ricardo desceu a escadaria como uma lâmina fria. Ele estava impecável, o terno cortado sob medida para esconder a podridão de sua linhagem.

Beatriz sentiu o estômago revirar. O desdém dele não era apenas pessoal; era uma ferramenta de controle.

— Vim buscar os pertences de Sofia. O testamento me dá esse direito, Ricardo. Não estou aqui para pedir permissão.

Ricardo parou a dois degraus de distância, o cheiro de charuto caro e desinfetante invadindo o espaço pessoal de Beatriz.

— O testamento é uma sugestão para os vivos. Sofia não está mais entre nós. E esta casa não tolera visitas que não conhecem o seu lugar. Os advogados chegam em breve para a homologação final. Sugiro que saia antes que a tempestade bloqueie o portão, ou terei que pedir aos seguranças que a escoltem para fora.

Ele se virou, atendendo uma chamada no celular. “Homologação” foi a única palavra que Beatriz precisou ouvir para entender que o tempo não era apenas um conceito; era uma arma apontada para sua nuca. Enquanto ele se perdia em uma discussão técnica sobre prazos, ela se esgueirou para a biblioteca.

O ambiente era um mausoléu de mogno e couro. Sofia, antes de desaparecer, deixara uma mensagem cifrada: “Onde a história se curva, a verdade se esconde”. Beatriz passou os dedos pela estante, ignorando o som abafado de copos de cristal no andar de cima. Ao pressionar um entalhe em forma de folha de acanto, a madeira cedeu com um estalo seco. Atrás do painel, um compartimento forrado de veludo revelou um livro-razão de capa preta.

Ao tocar o couro, Beatriz sentiu o peso da escolha. Ela não estava apenas encontrando um objeto; estava assumindo uma dívida de sangue. Ela abriu o livro sob a luz fraca de uma luminária. A caligrafia era metódica, cirúrgica. Não eram apenas números. Eram nomes de juízes, datas de suborno e “taxas de agilização” para processos de desapropriação que haviam destruído centenas de famílias em São Paulo.

O coração de Beatriz disparou. Ela virou a página, buscando o nome de Sofia, mas o que encontrou foi um golpe mais profundo. Em uma entrada de três anos atrás, listada sob um código de projeto de infraestrutura, estava o nome de seu próprio pai. Ao lado da assinatura dele, um valor astronômico pago para enterrar um escândalo ambiental que, até então, ela acreditava ter sido um acidente trágico.

Beatriz fechou o livro, a respiração presa na garganta. O nome de seu pai era a prova final que ligava a família a um crime imperdoável, transformando sua busca por justiça em uma luta pessoal pela sobrevivência. O relógio do saguão soou, uma batida metálica e lenta, lembrando-a de que, a cada segundo, o tempo para expor a verdade — e para salvar sua própria vida — diminuía. Ela guardou o livro sob o casaco, sentindo o volume rígido contra as costelas. O jogo de soma zero tinha acabado de começar, e ela era a única peça que Ricardo ainda não tinha conseguido remover do tabuleiro.

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