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Chapter 11: A Última Missa

Beatriz interrompe a missa de sétimo dia em Santa Fé, expondo o livro-razão e as provas de corrupção da família Viana diante da elite local e de um delegado federal conivente. O império de Helena desmorona sob a pressão pública, mas Beatriz descobre que Mariana, a verdadeira herdeira, observa a queda de longe, pronta para reivindicar o poder.

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A Última Missa

A chuva em Santa Fé não lavava o pecado; ela apenas misturava a fuligem das chaminés da mansão Viana com o barro das ruas, criando uma lama negra que grudava nos sapatos de Beatriz como uma acusação. Faltavam dezenove horas para a leitura do testamento. Dezenove horas até que o nome de Mariana fosse apagado dos registros civis e a fortuna, consolidada sob o controle absoluto de Helena. O eco dos disparos abafados no escritório da mansão ainda vibrava em seus ossos. Tiago ficara para trás, uma peça sacrificada no tabuleiro para que ela pudesse carregar o peso do livro-razão contra o peito — um volume de couro gasto que cheirava a mofo e traição.

Beatriz parou diante da Igreja Matriz. A missa de sétimo dia estava em curso. O som do órgão, distorcido pela umidade, parecia um lamento fúnebre para uma morta que, na verdade, definhava em uma clínica na Serra. Ela não era mais a sobrinha invisível. O casaco rasgado e o rosto manchado de fuligem a tornavam uma anomalia naquele santuário de elite. Ela entrou. O ar lá dentro era denso, saturado de incenso e o perfume caro das famílias que sustentavam o império Viana.

No altar, Helena estava impecável, o véu de renda negra ocultando qualquer traço de humanidade. Ao seu lado, o delegado federal — o homem que deveria garantir a lei, mas que figurava na página 112 do livro-razão como beneficiário de uma propina mensal. O conluio era total. Beatriz sentiu o peso do livro. Cada página ali dentro custara a segurança de Tiago e a sanidade de Mariana. Entregar aquilo ali não era um ato de justiça, era um suicídio social.

Ela caminhou pelo corredor central. O chiar de suas botas sobre o mármore interrompeu o canto. O silêncio que se seguiu foi absoluto, uma lâmina cortando a atmosfera piedosa. Helena virou-se lentamente. Seus olhos, gélidos, não demonstraram surpresa, apenas um desprezo calculista. Ela fez um gesto quase imperceptível para os seguranças nas laterais.

— Onde está Tiago? — a voz de Beatriz saiu firme, desprovida da hesitação que a definira por anos. — Você o descartou, mas esqueceu que ele guardou o registro de cada centavo que você roubou desta cidade.

Helena levantou-se, ajustando o véu com uma calma aterrorizante.

— Você está delirando, Beatriz. A dor da perda a deixou instável. Segurança, retirem-na daqui antes que ela cometa uma loucura maior.

Os seguranças avançaram, mas Beatriz abriu o livro-razão, exibindo as anotações manuscritas sob a luz das velas.

— Vereador Mendes! — ela gritou, apontando para a primeira fileira. — Página quarenta e dois. O suborno da licitação da ponte. Dr. Arnaldo, página oitenta. O aborto forçado na clínica da serra. Todos vocês estão listados aqui. O livro é a prova. A autoridade federal está aqui para prender quem for citado, ou para confirmar que a lei em Santa Fé é apenas uma extensão da vontade dos Viana?

O pânico irrompeu. O murmúrio na igreja transformou-se em um tumulto de cadeiras arrastadas e gritos abafados. O delegado, acuado pelo olhar da multidão que agora percebia o risco de ser exposta, levantou-se, hesitante. A máscara de piedade da cidade desmoronou. Beatriz, exausta, estendeu o livro. O império estava em chamas.

Enquanto o caos se instalava, Beatriz recuou para a sombra de uma coluna lateral. Foi quando a viu. Mariana, a herdeira supostamente desaparecida, observava tudo de um canto escuro, com um sorriso frio que não guardava gratidão, mas uma ambição que rivalizava com a de Helena. A herança não fora salva; ela apenas mudara de mãos, e a caçada estava longe de terminar.

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