O Preço da Liberdade
O som do machado contra a madeira de lei da porta do escritório não era apenas um ruído; era a contagem regressiva ganhando corpo. Cada golpe fazia o lustre de cristal vibrar, uma chuva de poeira fina caindo sobre o tapete persa. Beatriz sentiu o peso do livro-razão contra as costelas, o couro frio e úmido, um artefato de corrupção que agora valia mais que a própria mansão.
Tiago estava encostado na mesa, o braço esquerdo pressionado contra o abdômen. O sangue, escuro e espesso, manchava a camisa social que ele usara para manter a fachada de administrador impecável. Ele não olhava para a porta, mas para ela.
— Dezenove horas, Beatriz — ele sussurrou, a voz cortada pela dor. — É o tempo que resta até o testamento ser lido. Se Helena colocar as mãos nesse livro, a verdade sobre Mariana e sobre o que fizemos será enterrada com você.
Beatriz sentiu o estômago revirar. Ela havia lido os registros. O nome de Tiago estava lá, listado como beneficiário de subornos que mantinham a família Viana acima da lei da cidade. A traição não era uma suspeita; era um fato documentado em tinta preta.
— Por que me ajudar, Tiago? — ela perguntou, a voz firme apesar do medo. — Você está no livro. Você é parte do esquema.
Ele soltou uma risada seca, um som que terminou em um gemido.
— A chantagem de Helena é uma prisão sem grades. Eu não queria ser o cúmplice, mas ela nunca me deu escolha. Agora, essa é a única escolha que me resta. A redenção é um luxo que não posso pagar, mas a sua fuga é uma dívida que posso quitar.
Um golpe mais forte fez a madeira estalar. A segurança de Helena estava a segundos de entrar. Tiago sacou a arma do coldre com a mão trêmula, verificando o pente. Ele não era mais o administrador frio que Beatriz conhecera; era um homem que já havia aceitado o fim.
— A galeria de serviço atrás da estante — ele ordenou, apontando com o cano da arma. — Eles estão bloqueando a saída principal. Se eu sair com você, seremos pegos em dez minutos. Eles conhecem meus passos. Se eu ficar, ganho tempo.
Beatriz hesitou. O sacrifício dele era um custo alto demais, uma moeda de troca que ela não queria aceitar. Mas o relógio na parede, com seu tique-taque implacável, lembrava-a de que Mariana estava viva em uma clínica na Serra, esperando por uma salvação que dependia inteiramente daquele livro.
— Tiago, não…
— Vá! — ele gritou, a voz ganhando uma autoridade que a fez recuar. — Leve a prova para a praça central. Se não estiver lá antes do amanhecer, nada disso terá importado. O clã Viana vencerá, e Mariana será esquecida.
Ele a empurrou para a escuridão da passagem secreta. No momento em que a estante se fechou, o estrondo da porta do escritório cedendo ecoou pelo corredor. Beatriz correu. O túnel era estreito, claustrofóbico, cheirando a pedra úmida e segredos esquecidos. Atrás dela, o som de disparos rompeu o silêncio da mansão. Ela não olhou para trás. O luto era um luxo que ela não podia se permitir enquanto o tempo corria.
Ao emergir nos jardins, a chuva torrencial a atingiu como um choque térmico. A mansão, com suas luzes apagadas, parecia um mausoléu. Beatriz correu pela vegetação densa, o livro protegido sob o casaco. Ela não era mais a sobrinha invisível; ela era a única guardiã da verdade.
Ao chegar à periferia da cidade, a torre da igreja se erguia contra o céu noturno. No alto do altar, uma silhueta imóvel observava a praça. Tia Helena. A matriarca esperava, confiante de que o tempo jogava a seu favor.
Beatriz entrou na praça, os pés pesados na lama. O sino da igreja começou a soar, marcando a próxima hora. Ela apertou o livro contra o peito. O confronto final não era mais sobre esconder segredos; era sobre quem teria a coragem de revelá-los antes que o prazo se esgotasse.