A Invasão ao Cofre
O relógio de pêndulo no hall parou às 03:14. Sem a eletricidade, a mansão Viana tornou-se um organismo morto, mas ainda perigoso. Beatriz sentia o metal da chave contra a palma da mão, uma marca física de sua transgressão. Ao lado dela, Tiago pressionava o ferimento no flanco; o sangue, escuro e viscoso, manchava sua camisa social. Eles estavam a dezenove horas da leitura do testamento, o prazo final que selaria o destino de Mariana e o dela própria.
— Se a segurança nos encontrar aqui, não haverá tribunal — sibilou Tiago, a voz falhando. — Helena deu ordens para que o problema fosse resolvido antes do amanhecer.
Beatriz não respondeu. Ela não podia se dar ao luxo de confortá-lo. Cada segundo gasto em empatia era um segundo subtraído de sua sobrevivência. Eles alcançaram o escritório do patriarca. A porta de mogno, antes um símbolo de poder, agora parecia a entrada de uma câmara de execução. Beatriz inseriu a chave no mecanismo oculto sob o entalhe de bronze. O clique foi seco, definitivo.
Dentro, o ar era denso, impregnado com o cheiro de tabaco e a podridão de décadas de segredos. Beatriz ajoelhou-se, tateando o rodapé até encontrar a mola do cofre. Quando a porta de aço cedeu, o conteúdo revelou a anatomia da ruína familiar: o testamento original e o livro-razão completo.
Ela abriu o livro. A caligrafia de Mariana, precisa e fria, detalhava não apenas a corrupção, mas a cumplicidade de cada membro do clã. E lá estava: o nome de Tiago, listado como beneficiário de propinas internacionais. O peso da revelação a atingiu como um soco. Ela ergueu os olhos, o livro tremendo em suas mãos.
— Você sabia — ela disse, a voz cortante. — Você não é um aliado, Tiago. Você é um cúmplice.
Tiago não desviou o olhar. A dor em seu rosto era real, mas sua determinação era mais fria.
— Eu sou um sobrevivente, Beatriz. Assim como você terá que ser. Se você sair daqui com isso, a família cai. Se você ficar, você morre com eles.
Antes que ela pudesse responder, o feixe de uma lanterna cortou a escuridão do corredor. Passos pesados, cadenciados, pararam diante da porta. A segurança não estava mais patrulhando; eles estavam cercando o escritório. O som de metal contra metal — o carregamento de armas — ecoou no silêncio absoluto da casa. Beatriz apertou o livro contra o peito, sentindo o pulso acelerado. O cerco estava fechado. Não havia mais para onde recuar.