Pacto de Silêncio
O ar no sótão da Mansão Viana não era apenas viciado; era uma sentença. Beatriz ouviu o estalo seco da fechadura sendo forçada do lado de fora. Helena não estava mais brincando de matriarca; ela estava limpando o tabuleiro.
— Beatriz, abra. O testamento é irrevogável. Sua resistência só torna a queda mais dolorosa — a voz de Helena, desprovida de qualquer afeto, atravessou a porta de carvalho como um aviso de execução.
Beatriz não respondeu. Seus dedos, trêmulos, tatearam a madeira do painel que Mariana, em sua engenharia de corrupção, deixara como única saída. Ela sentiu a ranhura da chave mestra — um pedaço de metal frio que pesava mais do que qualquer herança — contra sua palma suada. Com um empurrão desesperado, o painel cedeu. Ela deslizou para a escuridão da escada de serviço exatamente quando a porta do sótão cedeu com um estrondo metálico. O cheiro de poeira e segredos sufocou-a enquanto ela descia, deixando para trás o eco dos passos de Helena.
Na biblioteca, o silêncio era uma faca. Tiago estava lá, a camisa manchada de sangue, os olhos fixos na porta secreta. Ele não parecia um aliado; parecia um homem que já havia aceitado o fim.
— Você viu, não viu? — ele perguntou, a voz rouca. — Mariana não era a vítima. Ela era a arquiteta. Ela construiu o sistema que Helena agora usa para nos enterrar.
Beatriz avançou, a chave mestra brilhando sob a luz fraca da lua que entrava pelas frestas das cortinas.
— Eu vi o suficiente para saber que você também está nas contas, Tiago. Onde ela está? Helena não a matou, ela a escondeu.
Tiago soltou um riso seco, pressionando o ferimento no flanco.
— Ela está em uma clínica na Serra. Helena a mantém como garantia. Se você abrir o cofre, se expuser o livro-razão, a proteção de Mariana acaba. Você não está apenas lutando por uma herança, Beatriz. Está decidindo quem vive quando o sol nascer.
O relógio da catedral, um som que Beatriz aprendera a odiar, começou a badalar. Meia-noite. O prazo legal para a declaração de ausência de Mariana estava em sua fase final. Menos de vinte horas para a leitura do testamento.
Eles se moveram como sombras até a tapeçaria que escondia o cofre. Beatriz inseriu a chave. O mecanismo girou com uma precisão cirúrgica. Dentro, não havia apenas o ouro da família, mas a prova documental da corrupção sistêmica e o envelope com o selo da clínica.
De repente, a mansão mergulhou em trevas. O zumbido elétrico cessou. O silêncio que se seguiu foi absoluto, até que o som de botas pesadas no corredor da biblioteca confirmou o pior: a segurança de Helena havia cercado o perímetro.
— Ela cortou a energia para nos isolar — sussurrou Beatriz, o coração martelando contra as costelas.
Tiago puxou uma arma, o metal brilhando na penumbra.
— Eles não querem provas, Beatriz. Eles querem o silêncio. Se sairmos daqui, não haverá retorno.
Beatriz olhou para o envelope em suas mãos. A verdade estava ali, mas o custo era a vida de Mariana e a sua própria. O relógio da catedral terminou de soar. O prazo final começou. Lá fora, o som de um motor de carro e o feixe de lanternas varrendo as janelas da biblioteca sinalizaram que a caçada havia se tornado uma guerra aberta.