O Fim da Herança
O ar na nave da Igreja de Santa Fé não era mais de santidade, mas de decomposição. O incenso, antes um véu de piedade, agora sufocava. Beatriz sentia o peso de cada olhar da elite local — homens e mulheres cujos nomes, agora expostos no livro-razão, brilhavam como chagas abertas nas mãos do delegado federal.
Helena, no altar, parecia uma relíquia prestes a se estilhaçar. Ela não gritou. O silêncio da matriarca era mais aterrorizante que qualquer ameaça. Ela apenas observava Beatriz com uma frieza que ignorava a presença da polícia e o caos que se instalava nos bancos de madeira.
— Você acha que isso é o fim, Beatriz? — a voz de Helena cortou a tensão, baixa e cortante. — Você apenas trocou um mestre por outro. A herança não é um prêmio. É uma maldição que você acaba de aceitar.
Beatriz não respondeu. Ela sentia o relógio da torre badalar. Faltavam dezenove horas para a leitura oficial do testamento, mas o tempo jurídico já não importava. O império Viana estava sendo desmantelado em tempo real. O delegado, pressionado pela evidência pública, sinalizou para seus homens. Helena foi algemada. O som do metal contra o pulso da matriarca foi o único aplauso que Beatriz recebeu.
Ela não ficou para ver a humilhação final. Correu para a mansão, o coração batendo no ritmo da contagem regressiva que ela mesma iniciara. O hall estava em sombras. Ao entrar no escritório, o cheiro de papel queimado e sangue a atingiu. Tiago estava caído, a vida esvaindo-se em uma mancha escura sobre o tapete persa.
— Eles não vão parar — ele sussurrou, a voz um fio de ar. — Mariana... ela nunca esteve morta. Ela é o vácuo que você está tentando preencher.
Ele entregou uma chave, o metal frio contra a palma da mão de Beatriz. Era a chave do anexo, o cofre de segredos que nem o livro-razão ousara detalhar. Beatriz não teve tempo para o luto. O sacrifício de Tiago era o preço da sua liberdade, e ela não o desperdiçaria.
No anexo, o monitor de vigilância revelou a verdade. Mariana não era uma vítima de sequestro; era a arquiteta. Em uma colina próxima, um carro observava a mansão. Mariana estava lá, viva, assistindo à queda de Helena com a paciência de quem aguarda o momento de colher os destroços.
Beatriz voltou aos jardins. O advogado da família, trêmulo, estendeu-lhe a pasta da herança.
— A senhora é a única herdeira limpa, Beatriz. A tutela é sua.
Beatriz olhou para a pasta, depois para a colina onde Mariana a observava. Ela percebeu, com uma clareza brutal, que a herança era uma armadilha desenhada para mantê-la presa ao clã. Ela empurrou a pasta, deixando-a cair na lama.
— Não há herança. Apenas dívidas. Fiquem com as cinzas.
Ela caminhou em direção ao portão. O carro de Mariana arrancou, desaparecendo na neblina, mas o desafio estava lançado. Beatriz deixou a mansão para trás, sem olhar para trás. O império caíra, mas a caçada apenas começara.