A Fenda no Império
O estalo da tranca de ferro ecoou pelo sótão como um tiro. Beatriz não teve tempo de protestar; a porta pesada de carvalho foi puxada com força, deixando-a na penumbra sufocante, apenas com o pó e o cheiro de madeira velha. Do lado de fora, o Dr. Arantes ditava o selamento da mansão com uma voz desprovida de qualquer humanidade. A propriedade Viana, antes um labirinto de segredos, tornara-se agora uma tumba legal.
Beatriz tateou o forro do casaco. O livro-razão e os diários de Mariana estavam ali, pesados, uma prova física de uma conspiração que a mantinha em cativeiro. O relógio da catedral, lá embaixo, badalou as horas. Menos de vinte e quatro horas para a leitura do testamento. O prazo legal para a declaração de ausência de Mariana — o gatilho para a transferência total do império para as mãos de Helena — era uma contagem regressiva que ela sentia vibrar nos próprios ossos.
— A propriedade está sob custódia, dona Helena — a voz de Arantes atravessou o duto de ventilação, fria e definitiva. — Ninguém entra, ninguém sai até a leitura amanhã. O inventário está trancado.
Beatriz rastejou até uma fresta no assoalho. O salão principal parecia um cenário de teatro vazio. Helena estava no centro, imponente, o rosto esculpido em uma máscara de mármore que não revelava o abalo de ter visto seu filho ilegítimo, Tiago, expor a própria linhagem minutos antes. Tiago, agora, era apenas um peão descartado, cercado pelos seguranças que ele mesmo ajudara a contratar. Ele não olhou para cima. Helena, porém, levantou o olhar diretamente para o teto, como se pudesse ver através da madeira, fixando os olhos em Beatriz. Ela não precisava subir. O isolamento era sua execução.
Beatriz tateou o painel de carvalho atrás da viga central, buscando uma saída que Mariana, em seus diários, mencionara como um caminho de fuga. Ela ligou o celular, as mãos trêmulas, apenas para ver a tela exibir a mensagem: Sem Conexão. O jornalista a quem tentara enviar a prova digital não fora silenciado por Helena; ele era um beneficiário listado no livro-razão. O cerco era sistêmico.
Ela arrastou uma arca de ferro, expondo uma fenda estreita no rodapé. Enquanto folheava as páginas sob a luz fraca de um lampião, a revelação a atingiu como um soco: Mariana não era a vítima que a família pintara. Ela era a arquiteta. A letra de Mariana, nervosa e calculista, detalhava subornos que ela mesma orquestrara para forçar a mão de Helena. A herdeira desaparecida não era uma presa; ela era a peça que Helena precisava remover para que o império não ruísse por dentro.
A porta de carvalho rangeu. Helena entrou, sem pressa, o vestido de seda roçando o assoalho empoeirado. Ela parou a poucos metros, os seguranças obstruindo a saída.
— Você acha que encontrou a verdade, Beatriz? — Helena sorriu, um gesto que não alcançou os olhos. — Mariana era como eu. A única diferença é que ela cometeu o erro de acreditar que poderia me substituir. Você, por outro lado, é apenas um erro de cálculo que eu pretendo corrigir antes do amanhecer.
Helena retirou o celular das mãos de Beatriz com um movimento elegante. Ela não precisava de violência física; o domínio sobre a narrativa da cidade e a posse da mansão eram armas suficientes. Com um gesto seco para os seguranças, ela se virou e saiu, trancando a porta por fora.
Beatriz ficou no escuro, o diário de Mariana aberto no chão. O nome de Tiago aparecia na última página, não como traidor, mas como o único herdeiro legítimo que Helena tentara apagar. O jogo mudara: Beatriz não estava apenas lutando por sua vida, mas pela única pessoa que ainda poderia provar que Mariana não morrera, mas fora exilada pelo próprio sangue.