Dívidas de Sangue
O ar no sótão da Mansão Viana não era apenas poeira; era o cheiro de um império que apodrecia por dentro. O som metálico das chaves do Dr. Arantes ecoando pelo poço da escada funcionava como um metrônomo cruel. Cada porta que ele lacrava no andar inferior era um centímetro a menos de oxigênio para Beatriz. Ela não tinha tempo para o choque. Com as mãos trêmulas, ela folheou as últimas páginas do diário de Mariana. A caligrafia, antes elegante, tornava-se um rastro de pânico, confirmando o que o livro-razão apenas sugeria: a linhagem da família era uma mentira construída sobre o sangue de quem ousou questionar.
Tiago não era apenas o administrador frio que a traíra; ele era o filho ilegítimo de Helena, o herdeiro que o patriarca tentara proteger e que a matriarca tentara apagar da história. O rangido da porta do sótão sendo destravada interrompeu sua leitura. Beatriz empurrou o diário e o livro-razão para dentro do forro do casaco, sentindo o peso do papel contra suas costelas como uma sentença de morte.
Tiago surgiu na penumbra, o rosto uma máscara de exaustão profissional.
— O Dr. Arantes terminou o primeiro andar — disse ele, a voz desprovida da frieza habitual. Seus olhos encontraram os dela, e a cumplicidade que outrora existira dissolveu-se em pavor. — Se você não me entregar o que encontrou agora, Helena não vai apenas tirar sua herança. Ela vai garantir que você desapareça como Mariana. O inventário está sendo selado, Beatriz. Não há para onde correr.
Beatriz não recuou. Ela deslizou pela claraboia aberta, ignorando a dor aguda nos calcanhares ao atingir o telhado do jardim de inverno. Ela precisava de respostas, não de ameaças. Encontrou Tiago no jardim, entre os lírios em decomposição. O som seco da fita adesiva do advogado lacrando as portas do escritório ecoava pelo corredor principal como o tique-taque de uma contagem regressiva. Ela tinha menos de 24 horas antes que o testamento transformasse sua vida em um vazio legal.
— O jogo acabou, Tiago — ela rebateu, a voz firme. — Eu li sobre o seu pai. Eu sei quem você é. Você não é um administrador; você é o bastardo que Helena tentou apagar da história.
Tiago empalideceu. Antes que pudesse responder, o perfume caro de Helena pairou no ar, um aviso cortante. A matriarca surgiu entre as folhagens, acompanhada pelo silêncio opressivo de dois seguranças. O Dr. Arantes vinha logo atrás, com a precisão de um carrasco jurídico.
— A casa está sendo selada, Beatriz — a voz de Helena era um fio de seda. — Entregue o que você tirou do painel. Agora.
Beatriz olhou para Tiago, esperando uma faísca de resistência. Ele deu um passo à frente, sua voz saindo rouca, finalmente rompendo o silêncio da mansão.
— Ela tem razão, Helena. O inventário não pode ser selado. Não enquanto a linhagem desta família for uma fraude. Eu não sou um mero administrador. Eu sou o filho que você renegou, e este livro-razão prova cada centavo que você desviou para manter esse segredo enterrado.
O silêncio foi absoluto. Helena, pela primeira vez, perdeu a compostura, o rosto distorcido por um ódio visceral. Ela sinalizou para os seguranças. Tiago foi empurrado para o lado, humilhado e subjugado, enquanto Beatriz era arrastada em direção ao sótão. A porta foi trancada com um estrondo final. Ela estava isolada, a mansão selada, e a verdade, embora exposta, tornara-se agora sua própria sentença de morte.