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Chapter 4: A Máscara de Piedade

Beatriz usa um missal para esconder partes do livro-razão e enganar Helena, conseguindo acesso ao sótão. Lá, ela descobre nos diários de Mariana que Tiago é, na verdade, filho ilegítimo de Helena, revelando a motivação real por trás da conspiração familiar enquanto o advogado começa a selar a casa.

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A Máscara de Piedade

O ar na mansão Viana estava rarefeito, carregado com o cheiro de cera de vela e o medo que emanava das paredes. Beatriz sentia a borda rígida do livro-razão contra o abdômen, escondido sob o cós da calça. Cada respiração era um risco; cada movimento, uma possível denúncia. Lá fora, o motor de um sedan preto cortou o silêncio da noite com a precisão de um carrasco. O Dr. Arantes chegara. O inventário seria selado em minutos, e com ele, qualquer chance de expor a fortuna dos Viana como o que realmente era: uma contabilidade de crimes lavados em orações.

Batidas secas e autoritárias ecoaram na porta do quarto. Beatriz forçou o corpo a relaxar, transformando o pânico em uma máscara de submissão. Ela precisava ser a sobrinha desamparada, não a herdeira que carregava a prova da ruína do clã.

— Beatriz, abra — a voz de Helena, fria como mármore, atravessou a madeira. — O Dr. Arantes está no escritório. Ele quer finalizar os trâmites. E eu quero o que você tirou daquela gaveta.

Beatriz correu até a mesa de cabeceira, pegou o missal de couro envelhecido da avó e, com mãos trêmulas, arrancou as páginas centrais do livro-razão. O papel era áspero, manchado de tinta antiga e segredos recentes. Ela as enfiou entre as orações do livro sagrado, fechando-o com um estalo seco. O volume principal, ela deslizou para trás da moldura da cama, um esconderijo precário. Quando abriu a porta, exibiu o missal com a reverência de uma penitente.

— Eu estava rezando, tia — murmurou Beatriz, baixando os olhos. — Pedindo orientação. O peso de tudo isso... é demais.

Helena estreitou os olhos, inspecionando o objeto. A desconfiança era um veneno destilado com elegância. — Entregue-o. Se a sua fé é verdadeira, não precisa de muletas de papel.

Beatriz entregou o missal, sentindo o vazio onde as páginas incriminadoras deveriam estar. Helena o folheou, desdenhosa, e o deixou cair sobre a poltrona. — Fique aqui. Os seguranças têm ordens para não deixar ninguém circular até que Arantes termine o selamento. Se você sair, Beatriz, não haverá perdão.

Assim que a porta se fechou, Beatriz esperou a contagem de dez. O tempo era um inimigo faminto. Ela não esperou o silêncio total; moveu-se para a escadaria de serviço. Cada passo no mármore parecia um tiro. Ao atingir o patamar, uma sombra a bloqueou: Tiago. Ele não estava mais com a postura impecável de administrador; seus olhos estavam injetados e a camisa, desalinhada.

— Onde você pensa que vai? — sibilou ele. — Arantes já está na biblioteca. Ele trouxe os selos da procuradoria. Se você for vista fora do quarto, Helena não vai apenas confiscar o que você tem. Ela vai garantir que você nunca mais saia desta casa.

Beatriz parou, o ar faltando em seus pulmões. A contagem regressiva, antes abstrata, agora tinha o som metálico dos lacres sendo aplicados.

— Você está com medo, Tiago? — ela o encarou, forçando a voz a soar firme. — Eu vi o seu nome naquele livro. Vi os depósitos. Você não está protegendo a família, está protegendo o seu próprio pescoço. O Arantes sabe que você é o elo fraco?

Tiago empalideceu. O pânico dele era a prova que ela precisava. — Você não entende — ele sussurrou, aproximando-se. — Se o inventário for selado, a verdade sobre Mariana será enterrada. O sótão... os diários dela estão lá. Se você quer algo, é a sua última chance. Mas, Beatriz, ao abrir aquele baú, você sela seu próprio destino. Não haverá volta.

Ele se afastou, deixando o caminho livre. Beatriz subiu os degraus rangentes até o sótão, a lanterna de seu celular morrendo enquanto cortava a escuridão. Abaixo, o som de trancas sendo giradas ecoou pela mansão. O Dr. Arantes estava subindo.

Ela encontrou o baú de cedro sob uma camada de poeira. Dentro, não havia joias, apenas diários. Beatriz abriu o volume mais recente, ignorando o tremor em suas mãos. Seus olhos correram pelas linhas: “Tiago sabe. Ele não é o administrador, ele é a sombra. O filho que Helena nunca admitiu, o herdeiro que precisa do meu desaparecimento para que o Livro-Razão nunca chegue à polícia.”

A revelação atingiu Beatriz como um soco. O som de passos firmes e autoritários subindo as escadas mudou o ritmo de seu coração. Não eram os passos arrastados de Helena, mas o trote metódico dos seguranças, acompanhados pela voz fria do Dr. Arantes:

— O sótão é o último ponto. Tragam tudo para baixo. A herdeira não pode encontrar o que não existe.

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