O Relógio da Catedral
O silêncio no quarto de Beatriz não era paz; era a pressão de uma redoma de vidro prestes a estilhaçar. O trinco de bronze da porta, agora um símbolo de sua clausura, vibrava com os passos de Tiago no corredor. O celular, confiscado por Helena, deixara um vazio gelado em seu bolso, mas o gravador digital encontrado no fundo falso do guarda-roupa era uma arma que a tia ainda não conhecia.
Beatriz conectou as pilhas que conseguira na biblioteca, sentindo o suor frio escorrer pela espinha. O visor do gravador piscou, exibindo a voz de Mariana em um arquivo datado de três dias antes do desaparecimento. O áudio era um sussurro trêmulo, abafado por ruídos de estática e o som distante de uma tempestade: "Eles não vão esperar o testamento, Beatriz. O livro-razão é a sentença deles. Se você o encontrar, não confie em Tiago. Ele não é o administrador, ele é o executor do silêncio."
O sangue de Beatriz gelou. O aparelho tremeu em suas mãos quando uma batida seca na porta interrompeu a confissão. Tiago entrou sem esperar, seus olhos varrendo o quarto com uma precisão cirúrgica. Ele não era mais o aliado relutante; era o predador que sentia o cheiro da descoberta.
— Helena antecipou a leitura do testamento para daqui a vinte e quatro horas — disse ele, a voz desprovida de qualquer calor. — Ela sabe que você encontrou o livro. Entregue-o, Beatriz. É a única forma de garantir que você saia desta casa com vida.
Beatriz recuou, escondendo o gravador sob as dobras do cardigã. O confronto era inevitável. Tiago deu um passo à frente, sua mão alcançando o bolso dela, mas Beatriz desviou, a mente fervilhando. Ela percebeu, naquele instante, que ele não estava apenas obedecendo a Helena; ele estava tentando salvar a própria pele, pois seu nome constava nas páginas manchadas de suborno que ela guardava atrás do painel de madeira.
— Você não quer me salvar, Tiago. Você quer que a prova desapareça — rebateu ela, a voz firme apesar do medo.
Antes que ele pudesse reagir, o estalo seco do disjuntor principal ecoou pela mansão. A luz do lustre do corredor morreu, mergulhando o quarto em uma escuridão absoluta, apenas pontuada pelo brilho bruxuleante das velas de emergência. O apagão não era uma falha; era uma armadilha. Helena estava caçando-a no escuro.
Beatriz deslizou para o corredor, movendo-se com a memória tátil da casa que fora seu único refúgio. Do topo da escada, ela viu a cena que lhe tirou o fôlego: Tiago estava no hall de entrada, segurando uma lanterna para Helena. Ele entregou a ela uma chave mestra — a chave que abria cada compartimento da propriedade, inclusive o esconderijo do livro.
O relógio da catedral, lá fora, soou as horas com uma cadência fúnebre. Helena não esperaria o amanhecer. Ela planejava liquidar o inventário naquela mesma noite, apagando qualquer vestígio da existência de Mariana.
Beatriz recuou para as sombras da biblioteca, sentindo o peso do livro-razão contra o peito. Foi quando a porta da frente se abriu com um estrondo. O advogado da família, Dr. Arantes, entrou carregando uma maleta de couro que continha o fim de tudo. Tiago, ao passar por Beatriz no corredor escuro, agarrou seu pulso por um segundo, seus dedos cravando-se na pele dela em um gesto de desespero.
— O sótão — sussurrou ele, os olhos injetados de medo. — Onde ela mantinha os diários. É a única saída antes que eles fechem o inventário.
Ele foi imediatamente puxado por um dos seguranças de Helena para o hall. Beatriz ficou sozinha no escuro, ouvindo as vozes dos homens de Helena se aproximando. O prazo de 72 horas era uma mentira; o inventário seria selado em poucas horas, e com ele, o destino de Mariana e a própria vida de Beatriz.