Novel

Chapter 2: Preço da Verdade

Beatriz esconde o livro-razão após descobrir a cumplicidade de Tiago. Helena confisca seu celular e antecipa a leitura do testamento para o dia seguinte, isolando Beatriz e acelerando a contagem regressiva para o desastre.

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Preço da Verdade

O som dos saltos de Helena no assoalho de madeira era um metrônomo de execução. Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto, deixando apenas a náusea gelada que a acompanhava desde que abrira o livro-razão de Mariana. O nome de Tiago, grafado com tinta azul-ferro sob a rubrica de "Manutenção de Silêncio", brilhava na página como uma ferida aberta. Ele não era o aliado que a tiraria daquela mansão; ele era o carcereiro pago para garantir que ela nunca saísse.

— Beatriz? Sei que você está aí. Abra a porta. O jantar será servido em dez minutos.

A voz de Tia Helena era aveludada, carregada com aquela piedade cristã que, na família Viana, servia apenas para ocultar a podridão. Beatriz não tinha tempo para processar a traição. O livro-razão, um volume pesado e encadernado em couro gasto, parecia queimar suas mãos. Se Helena entrasse, a declaração de ausência de Mariana seria o menor dos seus problemas; ela mesma desapareceria antes da alvorada.

Beatriz correu até o painel atrás da penteadeira, o ponto onde a madeira rangia de forma peculiar. Com os dedos trêmulos, forçou a fresta, empurrando o livro para o vazio escuro entre a parede e o reboco. O papelão raspou contra a ripa, um som seco que soou como um tiro no silêncio do quarto. Ela empurrou o painel, a madeira encaixando com uma resistência cruel, e recuou, limpando as mãos manchadas de poeira e tinta no vestido.

A porta se abriu antes que ela pudesse controlar a respiração. Helena entrou, seus olhos percorrendo cada centímetro do quarto com uma precisão cirúrgica. Ela tocou o ombro de Beatriz, um gesto que parecia carinho, mas que Beatriz sentiu como uma marcação de território.

— Você ainda está aqui, escondida nas sombras desta tragédia? — Helena murmurou, os olhos fixos nos da sobrinha. — A casa está cheia de parentes aguardando notícias, e você se isola como se a ausência de Mariana fosse um segredo que você pudesse guardar para si. O testamento será lido em setenta e duas horas. Mariana era impulsiva, mas o nome Viana exige decoro. Diga-me, ela mencionou algum documento? Algum registro pessoal que ela possa ter deixado para trás?

Beatriz forçou um sorriso, o coração martelando contra as costelas.

— Só estou tentando processar, tia. Mariana era a favorita. É difícil acreditar que ela simplesmente tenha ido embora.

Helena estreitou os olhos, o perfume de rosas e formaldeído parecendo sufocar o ambiente. Sem aviso, ela estendeu a mão aberta.

— Você parece distraída, Beatriz. A tecnologia é uma distração perigosa em tempos de luto. Vou ficar com seu celular. Você precisa de um jejum digital para focar na tragédia familiar.

Beatriz entregou o aparelho, sentindo o peso do isolamento cair sobre ela como uma cortina de chumbo. Helena saiu, deixando-a sob vigilância interna, sem qualquer meio de comunicação com o mundo exterior.

Mais tarde, nos jardins, Beatriz encontrou Tiago perto da fonte. O ar estava pesado com o cheiro de jasmim podre e terra úmida.

— Você está atrasada — disse ele, sem se virar. O tom era profissional, destituído de qualquer faísca de cumplicidade.

— As coisas mudaram, Tiago. Minha tia confiscou meu celular. Ela está me vigiando como se eu fosse uma prisioneira. Por que o testamento da Mariana foi antecipado? Ninguém desaparece e perde tudo em três dias sem que alguém tenha facilitado o caminho.

Tiago finalmente se virou. Seu rosto era uma máscara de pedra, mas Beatriz notou o tremor em sua mandíbula.

— Você não deveria estar fazendo perguntas, Beatriz. Deveria estar arrumando suas malas. Helena não quer apenas a herança; ela quer apagar qualquer rastro de Mariana. E o prazo... não são mais 72 horas. Ela antecipou para amanhã. Amanhã à noite, o inventário será fechado.

Beatriz sentiu o chão oscilar. O tempo estava colapsando. Tiago era o carcereiro, não o aliado. No jantar, o clima era opressor. Helena cortava a carne com uma precisão cirúrgica, seus olhos fixos em Beatriz. Tiago servia o vinho, o rosto uma máscara de neutralidade, mas Beatriz percebeu o olhar dele oscilar brevemente em direção ao painel de madeira no andar de cima. Ele sabia. Ou suspeitava.

— A leitura do testamento foi antecipada para amanhã — anunciou Helena, sem levantar o olhar. — O império Viana não pode ser gerido por fantasmas, Beatriz. Tiago, certifique-se de que nada saia da mansão. Nenhuma correspondência, nenhuma informação. A verdade é um peso que esta família não pode mais carregar.

Beatriz voltou para o quarto, o silêncio da mansão soando como uma sentença. Ela tinha menos de 24 horas. E o homem que controlava as chaves da casa, o mesmo homem que ela descobrira na lista de subornos do livro-razão, agora era o responsável por garantir que ela nunca saísse daquela propriedade com o segredo que acabara de desenterrar.

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