O Eco nas Paredes
O badalar dos sinos da catedral de Santa Fé não era um chamado à oração; era o tique-taque de uma sentença. Faltavam setenta e duas horas para a leitura do testamento, o prazo legal que converteria o desaparecimento de Mariana em ausência definitiva. Com isso, o império dos Viana — e tudo o que ele escondia — seria consolidado sob o controle absoluto de Tia Helena.
Beatriz sentiu o peso do olhar da tia perfurando suas costas, tão cortante quanto o crucifixo de prata que a matriarca apertava entre os dedos. Elas estavam no quarto de Mariana, um santuário de móveis de carvalho e cortinas pesadas que a polícia já havia revistado, rotulando o caso como "fuga voluntária". Um silêncio comprado com doações generosas à paróquia.
— Você está revirando os pertences da sua prima como se buscasse um tesouro, Beatriz — a voz de Helena era um sussurro aveludado, carregado de veneno. — Ou talvez esteja apenas tentando encontrar uma forma de justificar sua permanência nesta casa após a quarta-feira. Lembre-se: sem ela, você não é nada além de um erro na folha de pagamento.
Beatriz não respondeu. Suas mãos tremiam enquanto ela movia os livros de capa dura na estante. O quarto estava impecável, quase estéril, mas o perfume de gardênias de Mariana ainda pairava no ar, uma acusação silenciosa contra a frieza daquela família.
— Estou apenas organizando, tia. Mariana detestaria ver o quarto assim — mentiu Beatriz, sentindo o suor frio escorrer por sua espinha.
— Organizando? — Tiago, o administrador da propriedade, surgiu na porta. Ele mantinha a postura impecável de sempre, mas seus olhos, frios e calculistas, varreram o cômodo com uma atenção que não era de um simples funcionário. — A polícia já revistou cada centímetro, Beatriz. Não há nada aqui além de memórias que a família prefere esquecer.
Beatriz sentiu o cerco se fechar. Helena e Tiago eram dois lados da mesma moeda: a guardiã da tradição e o executor da ordem. Assim que eles se retiraram, prometendo retornar para a inspeção final, Beatriz trancou a porta. O clique da tranca ecoou como um disparo.
Ela não podia se dar ao luxo de ser a sobrinha invisível. Se o testamento original não aparecesse, a verdade sobre o desaparecimento de Mariana seria enterrada junto com a herança. Seus dedos tatearam a boiserie de carvalho atrás da escrivaninha. Ela sentiu uma irregularidade no encaixe da madeira. Com um esforço que fez suas unhas lascarem, empurrou o painel. Ele cedeu com um estalo seco, revelando um nicho escuro, escondido na estrutura do casarão.
Lá dentro, envolto em um veludo gasto, jazia um livro-razão de capa preta, pesado, com as bordas manchadas por uma tinta que parecia ter décadas de oxidação. Ela o abriu, esperando registros de propriedades, mas o que encontrou cortou sua respiração. Não era contabilidade familiar; era um inventário de subornos, corrupção e silenciamento de autoridades locais. O papel amarelado vibrava em suas mãos, uma prova sólida que contradizia a fragilidade daquelas páginas. Ela não estava apenas segurando um registro; era a certidão de óbito da reputação da família, uma lista que ligava o nome de cada figurão da cidade — do prefeito ao bispo — à linhagem dos seus tios.
Beatriz folheou o livro, seus dedos deixando marcas de suor na tinta desbotada. Cada nome anotado com precisão cirúrgica não era apenas um dado, era uma arma. E, no topo da página de transações de 2022, um nome saltou aos seus olhos, fazendo seu estômago despencar: Tiago.
O homem que ela considerava seu único aliado na mansão estava listado ali, ao lado de valores que ultrapassavam seu salário anual. O choque foi físico, uma náusea ácida. Ele não era apenas um funcionário preso em chantagem; ele era um sócio silencioso no esquema que mantinha a cidade sob o controle da família.
De repente, o som de passos pesados ecoou no corredor. Helena estava voltando. Beatriz tentou esconder o livro, mas o painel emperrou. O trinco da porta começou a girar. O tempo, antes um aliado, agora era o seu carrasco.