O Cerco Final
A dor latejava primeiro na nuca, depois nos pulsos. Lucas abriu os olhos e o salão principal da mansão o engoliu inteiro: candelabros antigos pendurados como enforcados, luz amarelada tremendo nas correntes de bronze, o cheiro de cera queimada misturado com mofo velho e sangue seco — o dele. Os braços estavam presos atrás da cadeira de carvalho entalhado. Algemas de aço mordiam a pele já machucada. Ele tentou mexer os dedos e sentiu o formigamento de quem ficou muito tempo na mesma posição.
Do outro lado da mesa comprida, Tio Valério estava sentado. Terninho impecável, gravata frouxa, o brinco de turquesa lascado balançando entre seus dedos como um pêndulo.
— Acordou, sobrinho. — A voz saiu calma, quase paternal. — São três e quarenta e sete da manhã. Faltam dezessete horas e treze minutos pro meu prazo vencer.
Lucas engoliu em seco. A garganta estava áspera, gosto de borracha queimada na língua.
— Rafael mandou lembranças — continuou Valério, girando o brinco. — Ele disse que você foi muito educado no carro. Até mandou uma mensagem de despedida pra alguém. Pena que o sinal aqui dentro é péssimo.
O estômago de Lucas deu um nó. A mensagem desesperada que ele digitou com os polegares algemados, escondido no banco de trás, enquanto fingia desmaiar. Para o contato antigo de Helena. Se Valério sabia…
— Você rastreou tudo desde o começo — murmurou Lucas.
Valério inclinou a cabeça.
— Desde que você pisou na cidade, na verdade. Mas o brinco foi o toque final. Helena achou que estava sendo esperta ao deixar ele pra você. Não imaginou que eu já tinha colocado o chip anos antes. — Ele se levantou devagar. — E agora você está aqui. Com o livro-razão costurado na mochila. Entregue ele e talvez Helena viva pra ver o sol nascer depois de amanhã.
Lucas sentiu o peso da mochila ainda pendurada no ombro, a costura grosseira roçando sua nuca. Menos a página 47, mas ainda o suficiente para destruir tudo.
Valério deu um passo à frente, mão estendida.
— Última chance, menino.
Lucas torceu o pulso com força. A algema estava frouxa — erro de pressa, arrogância de quem acha que o outro já desistiu. O metal rangeu contra o osso. Sangue quente escorreu pela palma, mas a mão escorregou. Ele rolou para o lado, o corpo batendo contra o painel de madeira entalhada da parede oeste.
Dedos trêmulos encontraram a fenda quase invisível que o livro-razão indicara na página 81: uma linha reta de 1,2 metro a partir do terceiro arabesco do anjo. Apertou. A madeira cedeu com um clique seco. Uma faixa estreita girou para dentro, revelando escuridão e ar frio cheirando a mofo e metal antigo.
Lucas se jogou para dentro. A passagem era apertada, projetada para um corpo de cada vez. Correu curvado, ombro roçando nas paredes ásperas, o brinco batendo contra o peito dentro da camisa rasgada.
Atrás dele, a voz de Valério explodiu, abafada pela madeira:
— Você não sai vivo daqui, moleque. A casa já sabe que você está solto.
Luzes vermelhas fracas acenderam no teto baixo da passagem, um zumbido baixo acompanhando-as. Contagem regressiva em painéis minúsculos embutidos nas vigas: 29:47… 29:46…
Cada passo ativava sensores. Portas de aço desciam em intervalos de dez metros, selando trechos atrás dele. O labirinto não era mais só pedra e madeira; era um sistema vivo, modernizado para proteger segredos que ninguém deveria encontrar.
Lucas contou as curvas conforme o mapa mental do livro-razão: esquerda depois da grade enferrujada, reto até o cheiro de enxofre, direita na bifurcação marcada por arranhões antigos. O coração batia tão forte que abafava o eco dos próprios passos.
Chegou a uma câmara intermediária. Uma porta de aço sem maçaneta, apenas um pequeno painel biométrico encravado na parede. Ao lado, uma inscrição em latim quase apagada: Sanguis heredis aperit.
Sangue do herdeiro abre.
Atrás dele, sapatos caros ecoaram no corredor estreito. Valério apareceu na moldura da passagem, pistola pequena na mão direita, o brinco ainda na esquerda.
— Você realmente achou que eu deixaria o cofre sem proteção? — A voz saiu calma. — Esse painel não aceita digitais comuns. Só sangue. Sangue do herdeiro registrado. E adivinha quem está na lista desde 17 de abril de 2022?
Lucas encostou as costas na parede fria, tentando controlar a respiração. O relógio na parede oposta marcava 2 dias e 14 horas até a declaração oficial de morte de Helena. Depois disso, tudo passaria para as mãos que seguravam a arma agora.
— Você me colocou lá de propósito — disse Lucas, rouco. — Helena me transformou no bode expiatório perfeito.
Valério deu um passo à frente, pistola apontada para o peito dele.
— Ela tentou ser esperta. Colocou você como beneficiário final para forçar minha mão. Mas veja só: agora você está aqui, sangrando na minha frente, e o cofre vai abrir com o seu sangue. Depois disso, o sistema queima tudo. Documentos, discos, cópias. Nada sobra. Nem você.
Lucas olhou para o painel. Depois para Valério. Depois para a mochila ainda pendurada no ombro.
— Se eu abrir, você me mata do mesmo jeito.
— Talvez. Mas se não abrir, eu mato Helena primeiro. Enquanto você assiste. — Valério ergueu o celular. A tela mostrava Helena dopada, algemada a uma cama hospitalar, monitor cardíaco bipando devagar. — Ela ainda respira. Por enquanto.
Lucas sentiu o gosto de ferro na boca. Cortou a palma já ferida com a borda irregular da algema que ainda pendia do pulso esquerdo. Pingou o sangue no sensor.
O painel piscou verde. A porta de aço deslizou para o lado com um suspiro hidráulico.
Lá dentro, sobre pedestal de mármore preto, o verdadeiro livro-razão mestre: capa de couro grosso, fecho de prata, muito mais antigo e pesado que a cópia que Lucas carregava.
Ao mesmo tempo, um timer surgiu na parede da câmara: 2:00:00 → 1:59:59 → 1:59:58…
Luzes de emergência piscaram vermelhas. Portas externas se selaram com estrondo metálico em toda a mansão.
Lucas e Valério ficaram presos juntos dentro do coração da casa.
O ar começou a ficar mais quente. Um cheiro sutil de combustível começou a se espalhar pelos dutos.
Valério baixou a pistola devagar, os olhos fixos no livro.
— Você acabou de assinar sua sentença, sobrinho. E a dela.
Lucas apertou o livro-razão contra o peito, o couro frio contra a pele suada.
Dois dias para a declaração de morte. Duas horas para o incêndio automático. E agora, sem saída.