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Chapter 9: A Queda do Patriarca

Ferido e sozinho após a recaptura de Helena, Lucas ouve a mensagem final dela no micro SD e segue para o encontro com o jornalista Rafael no posto abandonado. Ele entrega as provas restantes e grava um depoimento incriminador, mas percebe sinais de traição. No carro, Rafael revela que trabalha para Valério há três anos e reproduz conversas que confirmam o plano de usar Lucas como bode expiatório. Após fingir desmaio e enviar uma mensagem desesperada, Lucas acorda algemado dentro da mansão. Valério o confronta, revela que Lucas é o beneficiário final em todas as transações recentes e sela a mansão com sistemas automáticos, deixando-os presos juntos.

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A Queda do Patriarca

A areia do rio seco ainda guardava o calor do dia quando Lucas abriu os olhos. O sangue da panturrilha tinha endurecido em crosta preta na meia rasgada. Cada batida do coração mandava uma facada nova pela perna. Restavam onze dias para a declaração de morte legal de Helena. Menos de vinte e uma horas para o ultimato de Valério. Se não entregasse o livro-razão inteiro até o amanhecer seguinte, o tio jurou que o encontraria antes que o sol nascesse de novo — e que dessa vez não haveria conversa.

Ele tateou o bolso: o brinco de turquesa lascado continuava lá, junto com o micro SD minúsculo que Helena enfiara na palma dele antes de os capangas a arrastarem de volta. Pegou o celular descartável — bateria em 7% — e conectou o cartão com dedos trêmulos. Os fones sem fio estavam sujos de areia, mas funcionaram. Apertou play.

A voz de Helena veio baixa, ofegante, como se ela estivesse falando escondida dentro de um armário.

“Lucas, se você está ouvindo isso é porque eu não consegui sair com você. Eles já estavam na ponte. Eu vi os faróis antes de você. A página 47 era o preço pra te manter vivo mais algumas horas. Escute: o avô sabia de tudo desde o começo. Ele deixou eu armar a fuga porque precisava de um bode expiatório que não fosse eu. Você era o plano B dele desde 2022. Mas ele não contava que eu ia te deixar o resto do livro. O jornalista, Rafael… é a última carta. Ele trabalha pra redação de São Paulo, tem credenciais, odeia a bancada evangélica. Use ele. Mas cuidado: se ele pedir demais, desconfie. Eu te amo. Não morra por mim.”

O áudio cortou. Lucas ficou olhando a tela escura. O avô sabia. Sempre soube. E agora Helena estava de volta nas mãos dele, dopada, algemada em algum quarto da mansão ou da clínica. Ele se levantou mancando, o mundo girando. Precisava chegar ao posto abandonado antes que os seguranças rastreassem o celular ou o sangue deixado na ponte.

A poeira do rio seco ainda grudava na roupa rasgada quando ele empurrou a porta enferrujada do posto. O cheiro de óleo velho e cigarro frio invadiu as narinas. Rafael já estava lá, sentado no capô de um Fiat Marea coberto de ferrugem, notebook aberto no colo, a tela azul iluminando o rosto magro.

— Chegou atrasado — disse Rafael sem levantar os olhos. — Faltam onze dias e três horas para a declaração. Se a matéria não sair antes, você vira sócio de um império que lava dinheiro com hóstia e vinho de missa.

Lucas deixou a mochila cair no chão de cimento rachado. A panturrilha latejava. Tirou o micro SD da meia, segurando-o como se queimasse.

— Aqui está o resto. Passaportes falsos, extratos de três offshores, áudios da Helena. Tudo que sobrou depois que entreguei a página 47 pra salvar ela.

Rafael estendeu a mão. Os dedos eram longos, unhas roídas.

— Me dá o gravador também. Quero você falando. Nome, data, parentesco, o que viu na clínica, os nomes dos fiéis que sumiram depois de doar tudo. Sem pausas. Só a verdade crua.

Lucas hesitou. Olhou para o celular de Rafael vibrando em silêncio sobre o capô. Três notificações seguidas. O mesmo tom de alerta que seu próprio aparelho fazia quando Valério mandava mensagem. Ele engoliu seco e começou a falar. Contou da infiltração na clínica, da algema no pulso de Helena, dos dízimos desviados que financiavam a estrutura. Cada frase pesava mais que a anterior. Quando terminou, sentia o estômago revirado. Tinha acabado de assinar sua própria condenação como beneficiário final.

Rafael copiou o cartão, devolveu-o e fechou o notebook com um estalo.

— A matéria sai em 48 horas. Você fez a coisa certa.

Mas seus olhos traíam uma satisfação fria. Lucas sentiu o ar ficar mais pesado. Algo estava errado.

O motor do Corolla rangia baixo enquanto subia a estrada de terra de volta à cidade-santuário. Lucas pressionava o pano sujo contra a panturrilha. Menos de vinte horas para o ultimato. Onze dias para a declaração. Rafael dirigia com calma irritante.

— Você está pálido demais. Quer que eu pare?

— Não. Só dirige.

Rafael deu um meio sorriso.

— Relaxa. O lugar seguro fica a uns quinze minutos. Amanhã isso explode.

Lucas sentiu o brinco cutucar a coxa. Helena dissera: “É mais do que parece.” Ele enfiou a mão no bolso, tateou o lascado. Havia uma reentrância minúscula na parte de trás da pedra. Um chip. Um rastreador.

Rafael esticou o braço para o porta-luvas e tirou um gravador digital. Apertou play.

Primeiro veio o chiado. Depois a voz de Lucas, do depoimento no posto: “…Valério mandou dopar a própria sobrinha…”

E então outra voz. Mais grave. Familiar. Valério.

“…deixe ele falar tudo. Quanto mais ele entregar, mais fácil fica provar que ele era o cérebro. O neto falido que queria o dinheiro todo. Perfeito.”

Lucas gelou. Rafael não desligou. Continuou dirigindo, o sorriso agora aberto.

— Três anos, Lucas. Três anos eu informo cada passo seu pro seu avô. Você achou mesmo que alguém de fora ia arriscar tudo por você?

O carro acelerou. As portas travaram com um clique. Lucas tentou a maçaneta. Nada. A panturrilha sangrava mais forte com o pânico. Ele fingiu uma ânsia de vômito, curvou-se para frente. Rafael diminuiu a velocidade por reflexo. Lucas aproveitou, arrancou o celular do console e digitou rápido a única mensagem que ainda podia salvar alguma coisa: o número antigo de um contato que Helena deixara no micro SD meses antes. “Mansão. Agora. Traição.” Enviou. Apagou o histórico. Devolveu o aparelho no mesmo lugar.

Depois deixou o corpo amolecer, fingindo desmaio.

A cabeça latejava quando ele acordou. As mãos presas atrás das costas, algemas mordendo os pulsos. O carro balançava sobre paralelepípedos conhecidos. Estava dentro do perímetro da mansão. Pelos vidros embaçados via os portões altos de ferro se fechando com estalo seco, o ronco do mecanismo hidráulico selando tudo.

Rafael passou o micro SD e o brinco para um segurança de pescoço grosso que esperava na porta traseira. O homem desapareceu na penumbra do jardim.

— Você entregou Helena pra eles — murmurou Lucas, voz rouca. — E agora me entrega também.

Rafael virou o rosto. A luz do painel iluminava o sorriso fino.

— Eu nunca fui seu jornalista. Eu era o dele. Você entregou tudo de bandeja.

A porta traseira abriu. Dois seguranças puxaram Lucas para fora. Ele mancou escada acima, o sangue pingando nos degraus de mármore. No alto da escadaria principal, Valério esperava, mãos cruzadas nas costas, terno impecável, expressão calma de quem já venceu.

— Bem-vindo de volta, neto.

Lucas parou no último degrau. Olhou nos olhos do avô.

— A página 47 não basta pra você. Eu ainda tenho o resto.

Valério desceu um degrau. A voz saiu baixa, quase paternal.

— A página 47 era a minha ligação direta. Mas você, Lucas… seu nome está em todas as transações finais. Desde 2022. Liquidação prioritária. Se eu morrer amanhã, o dinheiro vai pra você. E se eu viver… bem, você já confessou tudo pro Rafael. Temos gravações. Temos o micro SD. Temos o brinco com o rastreador que você carregou até aqui.

Ele fez um gesto. As luzes da mansão piscaram uma vez. Um som grave de travas automáticas ecoou pelos corredores. Portas blindadas descendo. Janelas seladas. O sistema de segurança que o avô instalara depois do escândalo de 2018 agora prendia os dois lá dentro.

Valério sorriu.

— Agora só restam nós dois e o silêncio. E o livro-razão que você ainda carrega na mochila. Vamos conversar sobre o que você vai fazer com ele antes que eu perca a paciência de vez.

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