O Preço da Liberdade
O alarme rasgava a Clínica Santa Clara como faca em carne. Lucas arrastava Helena pelo corredor da ala restrita, o braço dela mole em volta do pescoço dele, pés descalços arranhando o vinílico. O ferimento na panturrilha reabriu; sangue quente escorria pela perna da calça roubada e pingava em gotas escuras. Menos de vinte e uma horas para o ultimato de Valério. Onze dias para a declaração de morte dela selar a herança nas mãos do avô.
— Anda, Helena. Só mais um corredor — murmurou ele, voz rouca.
Ela balbuciou algo incompreensível, cabeça tombando contra o ombro. Os sedativos ainda dominavam; os olhos entreabertos refletiam as luzes vermelhas de emergência que pulsavam nas paredes brancas. Lucas contava os intervalos entre as sirenes: três… quatro… cinco. A cada ciclo, mais botas ecoavam nas escadas acima.
Virou à esquerda na placa desbotada “Saída de Emergência – Nível -1”. O brinco de turquesa lascado pesava inútil no bolso — a biometria da porta principal já fora revogada. Minutos antes, num lampejo de lucidez, Helena entregara a página 47 aos seguranças para comprar exatamente esses segundos.
Chegaram à porta de emergência. Lucas tentou o trinco. Trancada. O painel biométrico piscava vermelho. Socou a barra com o ombro ferido. A dor explodiu na clavícula, mas a porta cedeu com estalo seco. O ar frio do estacionamento subterrâneo os engoliu.
Cheiro de óleo queimado e desinfetante. Três viaturas administrativas alinhadas contra a parede de concreto. Lucas escolheu a do meio — porta destrancada, chaves na ignição. Alguém saíra às pressas. Abriu a traseira.
— Entra.
Helena desabou no banco traseiro como roupa molhada. Ele contornou, sentou ao volante e girou a chave. O motor tossiu e pegou. Painel acendeu: 23:51. Pisou fundo. Pneus cantaram na rampa íngreme. O para-choque raspou no concreto. No retrovisor, duas silhuetas surgiram na porta de serviço, lanternas varrendo.
Jogou o chaveiro pela janela assim que viu o rastreador piscando no painel. Perdeu segundos, mas ganhou velocidade. Dobrou na primeira rua estreita do centro histórico. Paralelepípedos fizeram o veículo trepidar. Pelas janelas entreabertas das casas coloniais, rostos surgiam — velhas de lenço, homens de camisa aberta —, todos olhando sem disfarce. A cidade já o marcara.
— Lucas… — A voz dela saiu fraca do banco de trás. — Eles vão fechar a Ponte dos Fiéis.
Ele olhou pelo retrovisor. Helena tentava se erguer, mãos trêmulas no encosto. Olhos ainda vidrados, mas a lucidez voltava em flashes.
— O avô mandou barricar tudo depois que soube que você estava na clínica. A ponte… ele disse que era o último caminho que sobrava.
Lucas apertou o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Placa indicava 800 metros. Dobrou à esquerda numa viela onde carros mal passavam. Faróis altos surgiram atrás. Acelerou. A viela estreitou mais. A viatura perseguidora ficou presa na entrada, rodas girando em vão contra as paredes antigas. Ganhou distância, mas agora estava preso no labirinto.
Seguiu pela margem do rio seco até avistar a Ponte dos Fiéis. Faróis de viaturas bloqueavam a passagem. Homens armados posicionados. Barricada improvisada. Sem chance de romper.
Helena murmurou:
— A escadaria de pedestres… ao lado da ponte. Desce pro leito.
Freou bruscamente. Saltou, abriu a porta traseira e puxou Helena para fora. Ela mal se sustentava. Carregou-a nos braços, descendo os degraus íngremes de pedra. O leito do rio era faixa de areia seca e cascalho sob a ponte. Faróis varreram a margem acima.
— Ali embaixo! Desceram pelo barranco!
Arnaldo e três capangas escorregavam pela lateral, lanternas cortando a escuridão. Lucas tentou correr, mas as rodas da viatura roubada giraram em falso na areia. O motor morreu.
Encurralados.
Arnaldo parou a dez metros, pistola apontada. Os outros flanquearam.
— Acabou, Lucas. Entrega o resto do livro e talvez o avô deixe você viver o suficiente pra ver o enterro dela.
Helena agarrou o braço de Lucas, unhas cravando na pele.
— Página 47… era o sacrifício que eu escolhi. Entregue. Agora. Ou eles matam nós dois antes do avô chegar.
Lucas hesitou. A mochila pesava no ombro — o livro-razão costurado no forro, prova de anos de lavagem via dízimos, o nome do avô ligado direto à offshore que engolia fiéis silenciados. Entregar a página mais importante era perder a única arma real.
Mas os olhos de Helena, injetados e determinados, não deixavam escolha.
Rasgou o forro com as chaves do carro. Puxou a página 47, amassada, tinta borrada pelo suor. Helena a tomou com os últimos fiapos de força e a ergueu.
— Aqui está. O original. Levem.
Arnaldo avançou, pegou a página com cuidado quase reverente. Conferiu sob a lanterna. Assentiu.
— É ela. Página 47. Confere.
Baixaram as armas. Um capanga se aproximou de Helena, passou o braço por baixo dela e a ergueu como criança.
— Vamos. O chefe quer os dois, mas a ordem mudou. Só ela volta viva por enquanto.
Lucas tentou avançar. Coronhada na nuca o jogou de joelhos na areia.
Enquanto arrastavam Helena escada acima, Arnaldo se virou uma última vez.
— Diga ao jornalista que você contratou pra vazar tudo… ele já trabalha pro avô há três anos. A armadilha fechou, garoto.
Lucas caiu de frente na areia, gosto de sangue na boca. A página 47 — ligação direta do patriarca ao esquema — se fora. Helena se fora de novo. Menos de vinte e uma horas para o ultimato de Valério. Onze dias para tudo acabar.
Apertou a mochila vazia contra o peito. O brinco de turquesa ainda no bolso. O micro SD na meia. Ainda restava algo.
Mas agora ele sabia: o jornalista nunca foi aliado.