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Chapter 7: A Clínica da Discórdia

Lucas infiltra a Clínica Santa Clara usando o brinco de Helena como chave, disfarçado de técnico de manutenção. Encontra Helena dopada e algemada no quarto 312, sob nome falso. Ela revela, em lampejo de lucidez, que fingiu o colapso para forçar a família a agir e que o avô — não apenas Valério — sabe da presença dele. Com o alarme interno disparado e seguranças se aproximando, Lucas entrega a página 47 do livro-razão a Helena, que a usa para distrair os seguranças e entregá-la a eles, sacrificando a prova direta contra o patriarca para ganhar tempo e proteger Lucas.

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A Clínica da Discórdia

O sangue escorria pela meia e pingava dentro do tênis, formando uma trilha escura que Lucas tentava apagar arrastando o pé bom. Menos de vinte e uma horas. O cronômetro no celular roubado marcava 04:12. Valério não blefava: ou entregava o livro-razão, ou seria tratado como cúmplice retroativo — e corpos não assinam confissões. A panturrilha queimava a cada batida do coração, mas ele apertava o brinco de turquesa lascado com força suficiente para sentir as bordas cortando a palma. A chave. A única coisa que ainda o separava de Helena.

Contornou o muro alto da Clínica Santa Clara, branco e azul-céu como as bandeiras de Nossa Senhora que tremulavam na cidade inteira. A entrada de serviço ficava atrás da capela lateral — um portão de ferro gradeado com leitor biométrico disfarçado de crucifixo de prata. O mesmo símbolo que aparecia na margem da coluna 7 do livro-razão, ao lado da transferência de R$ 840.000,00 para “Clínica Santa Clara Ltda.”. Ele se agachou, o joelho bom afundando no orvalho frio. O curativo improvisado estava preto e encharcado. Ignorou a dor, passou o brinco no leitor.

Um clique seco. A porta cedeu. Nenhum alarme audível, mas Lucas sentiu o ar mudar — como se a clínica tivesse respirado e anotado sua chegada. Entrou rápido, fechando a porta atrás de si. Corredor de serviço estreito, cheiro de cloro e comida requentada. À esquerda, a placa discreta: Ala Restrita – Internação Voluntária. Subir. Tinha que subir antes que o log silencioso chegasse ao plantão central.

Na lavanderia do subsolo encontrou um jaleco cinza de técnico de manutenção. Cheirava a alvejante e suor velho. Vestiu por cima da camisa suja de sangue, enfiou o brinco no bolso do peito e empurrou um carrinho vazio com caixa de ferramentas falsa. Subiu as escadas de serviço, cabeça baixa, passos ritmados como quem faz isso todo dia. A cada andar o ferimento pulsava mais forte, mas o relógio pulsava mais alto.

Chegou ao terceiro andar. Corredor vazio, luz fria de LED, câmeras em cada curva. O quarto 312 tinha placa simples: Isolamento – Restrição Total. Nenhuma indicação de nome. Trancada por dentro com tranca mecânica — estranhamente primitiva para uma ala de segurança máxima. Usou a gazua improvisada que aprendera no Retiro São José. Dezessete segundos. A porta abriu.

O quarto era pequeno, paredes brancas manchadas de umidade, cama com grade alta. Helena estava deitada de lado, lençol até o queixo, braço esquerdo algemado à cabeceira com material acolchoado. No pulso direito, pulseira de identificação branca. Lucas se aproximou devagar. O nome na pulseira dizia Clara Mendes. Data de nascimento: 12/03/1989. A mesma data de Helena. O mesmo CPF que aparecia no livro-razão como beneficiária final antes de Lucas ser inserido em 2022.

— Helena… — sussurrou, sacudindo o ombro dela com cuidado.

A pele queimava. Pupilas dilatadas, respiração lenta. Drogas pesadas. Um gemido baixo escapou dos lábios rachados.

— Você… não deveria ter vindo, Lucas.

A voz era fiapo, mas carregava o peso de quem planejava cada passo desde antes de sumir. Lucas sentiu o estômago revirar.

— O avô já sabe que você está aqui.

As palavras bateram como um soco. O mesmo tom do áudio no micro SD. O avô. Não Valério. O velho patriarca que nunca aparecia nas fotos de família, mas assinava cada transferência grande no livro-razão. Valério era só o executor. Helena tinha armado tudo para atrair o herdeiro certo — e o bode expiatório perfeito era ele.

Passos pesados no corredor. Dois pares. O alarme interno devia ter sido disparado quando ele forçou a fechadura.

— Banheiro. Agora — murmurou Helena, os olhos ganhando um segundo de clareza desesperada.

Lucas se enfiou no cubículo minúsculo, porta entreaberta. O livro-razão costurado na mochila pesava contra as costas. Página 47 — a que ligava o avô diretamente às contas offshore, à lavagem via dízimos, à internação forçada de Helena. A prova final.

Helena lutou contra as algemas, o corpo tremendo de esforço.

A porta do quarto abriu com clique metálico.

— Senhorita Helena? Tudo bem por aqui?

Voz de segurança. Botas pararam perto da cama.

Helena respirou fundo, voz rouca mas firme:

— Só… uma convulsão. Já passou. Podem… me soltar um pouco? A algema está machucando.

Silêncio. Um dos seguranças riu baixo.

— Ordens são ordens, doutor disse que fica até o Valério chegar.

Lucas sentiu o sangue gelar. Valério vindo. O tempo acabava.

Helena tossiu, fraca.

— Então… me deem água. Por favor.

O segurança se aproximou da pia. Lucas viu a sombra dele pelo vão da porta. Helena, com esforço máximo, conseguiu virar o corpo o suficiente para que a mão algemada alcançasse a beira da cama. Seus dedos tremiam, mas seguraram a borda do lençol.

— Espera… tem uma coisa… no chão. Caiu da minha mão.

O segurança se abaixou. Helena, num movimento que deve ter custado tudo o que restava dela, rasgou a página 47 que Lucas havia colocado ao alcance dela minutos antes. Dobrou-a com dedos trêmulos e estendeu para o homem.

— Isso… é importante. Entreguem pro senhor Valério. Ele vai querer ver.

O segurança pegou o papel. Desdobrou. Seus olhos se arregalaram.

— Caralho… isso é…

O segundo segurança se aproximou.

— O que é?

— Chama o chefe. Agora.

Eles saíram rápido, levando a página. A porta fechou com força.

Lucas saiu do banheiro. Helena já estava apagada de novo, o rosto cinza, respiração rasa. Ele tocou o pulso dela. Fraco, mas ainda batendo.

Menos de vinte e uma horas. E agora Valério tinha a página que ligava o avô ao esquema inteiro.

Mas Helena ainda estava viva.

E o avô sabia que ele estava ali.

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