Novel

Chapter 6: O Relógio de Areia

Com menos de 22 horas restantes do ultimato de Valério, Lucas se isola em um hotel barato, ouve o áudio deixado por Helena no micro SD e decifra a coluna 7 do livro-razão, descobrindo que ela está viva e presa na Clínica Santa Clara. A revelação o coloca como beneficiário final e bode expiatório desde 2022. Capangas invadem o hotel; ele foge ferido, preservando o livro-razão, mas a perseguição aperta e a paranoia o consome. Termina em novo esconderijo com alguém testando a porta.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

O Relógio de Areia

Lucas empurrou a cômoda contra a porta do quarto 14 antes mesmo de acender a luz. O móvel rangeu nos tacos tortos, o som ecoando como um aviso. Menos de vinte e duas horas para entregar o livro-razão na sacristia ou ser declarado cúmplice retroativo. Onze dias exatos até Helena ser considerada morta e a herança selada nas mãos que a fizeram desaparecer.

Ele deixou a mochila cair. A cama afundou sob seu peso até quase encostar no assoalho. Tirou o micro SD da meia — o metal ainda quente da pele — e encaixou no adaptador vagabundo comprado na rodoviária. O celular velho demorou a reconhecer o cartão. Um único arquivo de áudio. 47 segundos. Sem nome.

A voz de Helena veio baixa, quase colada no microfone:

“Se está ouvindo isso, o taxista já te entregou. Eu sabia que ele ia. Coluna 7. Subtraia os dízimos falsos da Páscoa de 2022. O padrão mostra onde eu estou. Não confie em quem já aceitou dinheiro da família. Nem em mim, se eu aparecer dopada. Chegue antes que me apaguem de vez. O brinco abre a porta da Santa Clara.”

O áudio cortou seco. Lucas ficou olhando a tela preta, o estômago contraído. Ela previra a traição. Deixara a pista sabendo que ele estaria sozinho contra todos.

Trancou-se no banheiro minúsculo, costas contra a banheira rachada, lanterna do celular tremendo na mão. Abriu o livro-razão na página marcada pelo fio vermelho. Coluna 7. Totais de dízimo da Páscoa 2022 sublinhados em vermelho fino. Começou a subtrair os valores declarados dos depósitos anexados.

Na décima terceira linha o desvio saltou: R$ 47.820 a menos. Não erro de digitação. Sistema deliberado. Riscou os números falsos com a unha. Restaram transferências mensais, todo dia 17, mesma conta: 319.407-8, Banco do Estado de São Paulo, agência 0047-9. Beneficiário: Clínica Santa Clara Ltda. Finalidade: “manutenção de paciente em regime de internação voluntária prolongada”.

Helena estava viva. Presa. Usando o próprio dinheiro sujo da paróquia para pagar o silêncio. Se o livro vazasse, o império financeiro da região desmoronaria em semanas.

O brinco de turquesa lascada queimava na palma da mão. Chave literal para a Santa Clara.

Então veio o som. Metal raspando metal no trinco da porta principal. Vozes abafadas no corredor.

— Ele não saiu. O taxista jurou.

— Então acaba logo. O tio quer o livro antes do amanhecer.

Lucas já estava de pé. Mochila nas costas, livro pressionado contra as costelas dentro da jaqueta. Correu para a janela do banheiro. Enfiou o ombro na madeira podre. A esquadria cedeu com estalo seco. Jogou a mochila. Passou as pernas pela abertura estreita, rasgando a calça no caco de vidro. O corte na panturrilha abriu quente, o sangue escorrendo pela meia.

Caiu no beco traseiro. Joelhos dobraram. Rolou, agarrou a alça e correu. Passos pesados atrás. Tiro abafado — silenciador. A bala ricocheteou no tijolo a centímetros da cabeça, lascas voando.

Dobrou a esquina, pulou um muro baixo, atravessou um terreno baldio atrás de uma capela abandonada. Pulmões em fogo. Motores se aproximando na avenida paralela. Faróis apagados. O mesmo carro preto de sempre.

Agachado atrás de entulho, verificou a mochila. Livro intacto. Brinco no bolso. Celular esmagado no primeiro hotel — sem backup do áudio, sem fotos dos passaportes. Só memória.

Meia hora depois empurrou a porta de outro hotel pior ainda, na periferia da BR. Recepcionista pegou as notas sem erguer os olhos. Quarto 17, segundo andar. Lucas arrastou a cômoda contra a porta outra vez, sentou no colchão nu.

Abriu o livro na última página dobrada por Helena. Referências cruzadas: Salmo 55:12–14, 17/04/2022, R$ 980.000,00, observação “L.P. – liquidação prioritária – beneficiário final”. Ao lado, letra apertada de Valério: entrega em 24h ou execução imediata.

Lucas Pereira. Beneficiário final desde 2022. Não proteção. Bode expiatório. Se o esquema explodisse, ele levaria a culpa inteira. Helena o colocara ali de propósito.

O peso do sobrenome agora era sentença de morte assinada.

Costurou o livro no forro rasgado da mochila com linha preta da nécessaire. Precisava chegar à Santa Clara. Resgatar Helena. Expor tudo antes que os onze dias virassem zero.

Passos no corredor. Pararam na porta 17. Trinco rangeu de leve. Alguém testando.

Lucas congelou, mão no brinco. Helena estava viva. Mas se morresse ali, ninguém saberia a verdade.

A maçaneta girou devagar.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced