Novel

Chapter 5: O Custo da Lealdade

Lucas segue a pista do Retiro São José indicada por Helena na folha do arquivo paroquial. Chega à casa de campo abandonada, encontra vestígios dela (brinco e micro SD com passaportes falsos para Lisboa), descobre que o taxista o entregou e é emboscado por capangas de Valério. Escapa pelo telhado e mata, chega a um galpão abandonado onde encontra novo bilhete de Helena reforçando a desconfiança em todos os aliados iniciais. Termina isolado, sem confiança restante e sob pressão dobrada do ultimato de 24h.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

O Custo da Lealdade

Lucas saiu pela porta lateral da igreja com o envelope da 'liquidação prioritária' dobrado contra o peito e o livro-razão colado à pele sob a camisa. Eram 17:42. Menos de vinte e três horas para entregar o caderno na sacristia ou virar cúmplice retroativo — um carimbo que, naquela cidade, equivalia a desaparecer antes mesmo dos onze dias restantes para a declaração oficial de morte de Helena.

Do outro lado da rua, o sedã preto aguardava com faróis apagados. O motor acordou baixo quando Lucas virou à direita, para a rua sem câmeras. Ele ergueu a mão. Um táxi amarelo encostou em segundos.

— BR-040, sentido interior. Depois eu aviso onde descer.

No retrovisor, o sedã fez a curva dois quarteirões atrás, mantendo distância exata. Lucas abriu a folha arrancada do arquivo paroquial. Na margem, em tinta preta ainda úmida, a letra de Helena: 'Retiro São José – última base antes de Lisboa. Documentos no forro.'

Ela não fora raptada. Tinha planejado a fuga do país com passaportes falsos. E deixara a porta entreaberta para ele.

— Desce aqui. Três quilômetros antes do trevo pro Retiro.

O motorista ergueu a sobrancelha, mas encostou no acostamento de terra. Lucas entregou duas notas de cem e desceu. A garoa virou chuva grossa assim que o táxi sumiu na curva. Ele caminhou pela estrada de terra com o capuz levantado, o livro-razão protegido como escudo.

A casa de campo surgiu após vinte minutos: telhado de zinco enferrujado, paredes descascando, janelas tábuas tortas. Lucas contornou pelos fundos, empurrou a janela estilhaçada com o ombro e rolou para dentro. O chão de taco rangia sob os pés. O ar cheirava a mofo misturado com tinta fresca — vermelha.

Lanterna do celular acesa. Colchão de solteiro jogado no canto, lençol com traços grossos de spray vermelho. Não era sangue; era marcação. Preso com fita adesiva rasgada no forro do colchão, um brinco de prata simples — o mesmo que Helena usava na orelha esquerda nas fotos antigas da família.

No forro rasgado, um micro SD embrulhado em filme plástico. Ao lado, papel dobrado com cuidado. Letra dela:

'Passagem Lisboa 17/10. Dois passaportes. Ana Clara Mendes. Segunda identidade: você, se aceitar. Não volte pra mansão. Eles já sabem que você leu a primeira página. O taxista trabalha pro tio. Não confie em quem te ofereceu ajuda primeiro.'

Lucas guardou o brinco e o cartão na meia esquerda. O coração batia tão forte que abafava a chuva no telhado. Helena planejara levá-lo junto. Ou pelo menos deixara a escolha.

Motor ao longe. Faróis cortaram a escuridão da estrada. O sedã preto.

Ele correu para o corredor. A porta da frente estalou com violência contida. Botas pesadas pisaram madeira podre.

— Taxista confirmou. Entrou sozinho — voz fina, irritada.

— Acha rápido. Chefe quer o caderno e a cabeça, nessa ordem — voz grossa.

Lucas subiu a escada de corda para o sótão, puxou a corda, alçapão fechou com baque surdo. Poeira caiu nos olhos. Arrastou-se até o canto mais escuro, entre vigas e caixas mofadas.

Lá embaixo, portas escancaradas, colchão virado, vidro quebrando.

— Brinco de mulher no chão. Ouro velho. Dela.

— Guarda. Prova que ele esteve aqui.

Passos na escada principal. Pararam na base da corda. Um puxou. A corda desceu sozinha — Lucas a cortara com o canivete.

— Filho da puta subiu pro sótão.

Chutes na cômoda. Tentaram alcançar o alçapão pulando. Um tiro estourou a fechadura do quarto ao lado. Lucas se encolheu. Rastejou até a claraboia quebrada no telhado, empurrou o vidro solto, saiu para a inclinação molhada. Deslizou até a beirada, saltou para o mato alto dos fundos. Rajadas curtas de tiros cortaram a chuva, mas erraram na escuridão.

Correu pela mata, galhos rasgando o rosto, até um galpão abandonado na margem da estrada, um quilômetro adiante. Empurrou a porta enferrujada, tropeçou para dentro e deixou-se escorregar contra uma pilha de pneus velhos. Peito subindo e descendo rápido demais. Celular com tela rachada, 3% de bateria, sem sinal.

No canto direito, sob bancada quebrada, a velha caixa de ferramentas que Helena usara anos atrás como ponto morto — esconderijo que só os dois conheciam. Abriu a tampa. Entre chaves quebradas e alicate sem cabo, bilhete dobrado. Letra recente dela:

'Eles sabem que você está lendo. Não confie em quem te ofereceu ajuda primeiro.'

Lucas fechou os olhos. O taxista. Arnaldo. Padre Daniel. Qualquer um que tivesse estendido a mão desde o primeiro dia podia estar comprado.

Guardou o bilhete junto ao micro SD e ao brinco. Olhou a estrada escura pela fresta da porta.

— Agora é só eu — murmurou.

A chuva não parava. Menos de vinte e três horas para o ultimato. Onze dias para a declaração de morte de Helena. E cada minuto que passava parecia arrancar mais um pedaço do chão sob seus pés.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced