O Preço da Verdade
O colchão rangeu sob o peso de Lucas quando ele empurrou o livro-razão mais fundo na fresta do forro. Onze dias. O prazo legal para declarar Helena morta e transferir tudo para as mãos certas havia caído para onze. As botas pesadas já ecoavam no corredor. Ele se endireitou, ombros curvados em luto ensaiado, o coração socando as costelas.
A maçaneta girou sem aviso.
— O jantar será servido aqui, senhor Lucas.
O segurança preencheu o vão da porta. Olhos varreram o quarto como scanners. A porta ficou entreaberta tempo demais. Mensagem clara: cada movimento era vigiado. Lucas sentiu o suor frio escorrer pela nuca. Não era tristeza que mantinha a porta aberta; era controle.
Ele precisava de ajuda externa. Antes que o cerco se fechasse de vez.
Desceu pela escada de serviço evitando as câmeras disfarçadas de holofotes de segurança. A cidade-santuário à noite cheirava a incenso velho e mofo. Na praça central, sob a estátua do padroeiro de braços erguidos, Arnaldo esperava no banco de pedra, colarinho aberto, terço enrolado nos dedos trêmulos.
— Você perdeu o juízo — sussurrou o contador, olhando para as sombras da igreja. — Valério tem olhos em todo canto.
Lucas abriu o casaco apenas o suficiente para mostrar a capa preta.
— Helena deixou isso pra mim. Você cuidou das contas da paróquia por dez anos. Decifre essa primeira linha.
Arnaldo recuou como se o livro fosse radioativo.
— Se eu tocar nisso, não perco só o emprego. Perco a vida.
— Só a primeira entrada. Nada mais.
O contador hesitou, depois pegou o volume com mãos que tremiam. Folheou até parar numa sequência de números e iniciais. Seu rosto perdeu cor.
— Não é só lavagem. É chantagem. Conta aberta em nome do padroeiro… mas os depósitos vinham dela. Direto. O destinatário é um conselheiro da igreja. Alguém que a pressionava. Ela pagava pra respirar.
Lucas sentiu o estômago revirar.
— E meu nome na margem? — perguntou, voz baixa.
Arnaldo virou a página. Ali, letra fina, quase um rabisco: L. herdeiro subsidiário – procuração em branco.
— Porque ela te colocou como fiador sem avisar. Se ela caísse, a culpa cairia em você. Legalmente.
O ar fugiu dos pulmões de Lucas. Helena não o escolhera para salvar. Escolhera para carregar o peso.
— Preciso de um preço, Lucas — disse Arnaldo, fechando o livro com força. — Sua procuração de saída da cidade. Entregue pra mim. Se a polícia vier, digo que você me obrigou. Senão, eu calo a boca pra sempre.
Onze dias. Sem saída legal, sem fuga. Sem tradução, sem chance.
Lucas tirou o papel do bolso interno. Assinou com mão firme só por pura teimosia. Arnaldo pegou o documento como quem recebe uma sentença alheia.
— A conta sai pra um offshore que Valério controla. E tem mais: os fiéis desaparecidos… não desapareceram. Foram pagos pra sumir.
Lucas guardou o livro sob a jaqueta. O contador já se afastava rápido, engolindo a procuração no bolso.
Ao voltar, o portão da mansão estava aberto. Dois seguranças diferentes esperavam. Olhos de quem já tinha ordens.
— Revista — disse o da cicatriz na sobrancelha.
Lucas ergueu os braços devagar. Dedos grossos passaram pela cintura, pela lombar. O livro colado à pele, preso pela cinta elástica, escapou por pouco. O suor ajudou a disfarçar o volume. O segurança hesitou, mas deixou passar.
— O senhor Valério quer falar com o senhor.
No corredor, Lucas foi direto para o quarto. A porta entreaberta. Pertences revirados. Gaveta aberta. Roupa íntima no chão. Alguém procurara. E não se importara em disfarçar.
Sentou na cama. O colchão rangeu exatamente onde o livro estava escondido. Fechou os olhos por um segundo. Onze dias. Sem saída legal. E seu nome já impresso como cúmplice.
A maçaneta girou sem batida.
Tio Valério entrou. Paletó cinza-claro, crucifixo de ouro balançando. Deixou a porta entreaberta. O corredor escuro parecia sugar o ar do quarto.
— Boa noite, sobrinho.
Lucas contou dois segundos antes de virar.
— Tio.
Valério avançou. O assoalho rangeu.
— Você anda agitado desde que chegou. — Inclinou a cabeça, estudando. — O contador da praça… ele falou muito?
O estômago de Lucas virou gelo. Valério sabia. A cidade inteira era o quintal dele.
— Deu os pêsames pela prima — respondeu, voz firme.
Valério sorriu. Gélido. Lento.
— Você encontrou algo que não deveria, não encontrou?