Sussurros nas Paredes
Lucas acordou com o coração já na garganta. O som veio de novo: virar de página. Seco, deliberado, impossível. Vinha de dentro da parede, exatamente onde escondera o livro-razão na noite anterior.
Ele ficou imóvel na cama estreita do quarto de hóspedes, ouvindo o próprio sangue pulsar nas têmporas. Onze dias. Restavam onze dias para que a justiça declarasse Helena morta e transferisse tudo — inclusive a culpa que agora carregava no nome — para as mãos de Valério.
Virar. Pausa. Virar.
Sem acender a luz, rolou para fora do colchão e se agachou ao lado da cabeceira. O crucifixo de madeira escura pendia torto, como deixara depois de encaixar a tábua solta. Mas agora a base estava meio centímetro deslocada para a direita. Alguém mexera.
Passou os dedos na fresta vertical atrás da cruz. A madeira rangeu de leve quando puxou. A tábua cedeu com estalo baixo. Enfiou a mão no espaço entre as vigas antigas. Seus dedos encontraram o couro frio da capa preta. Ainda estava lá.
Mas não exatamente como deixara.
Entre a capa e a primeira página, um fio vermelho fino, quase invisível na penumbra, marcava exatamente a entrada que Arnaldo decifrara na praça: a transferência inicial, a chantagem do conselheiro da igreja. Lucas sentiu um frio subir pela nuca. Alguém sabia que ele tinha o livro. Alguém estivera ali enquanto dormia.
Fechou a parede com cuidado, o crucifixo voltando ao lugar. No mesmo instante, passos pesados ecoaram no corredor. A maçaneta começou a girar devagar. Lucas se jogou de volta na cama, puxando o lençol até o queixo, fingindo sono profundo. A porta abriu alguns centímetros, uma sombra alongada invadiu o chão. Parou. Observou. Depois fechou-se com o mesmo cuidado.
Ele esperou cinco minutos antes de respirar de novo.
Precisava confirmar a última transação de Helena antes que Valério apertasse o cerco.
Às 3:17 da manhã, desceu a escada em espiral com os pés descalços, cada degrau rangendo como se a casa respirasse contra ele. Valério saíra há vinte minutos para a vigília noturna na igreja — ritual que durava exatamente duas horas e quarenta minutos. Tempo suficiente. Ou não.
Atravessou o corredor do térreo com o livro-razão colado ao peito, capa úmida de suor. A combinação que Helena deixara no verso da foto antiga — 19-47-03 — pulsava na cabeça como código de desarmamento de bomba.
Chegou à porta dupla do escritório privativo. A chave reserva surrupiada do chaveiro da governanta na véspera abriu sem resistência. Dentro, cheiro de charuto frio e madeira encerada o acertou como tapa. A escrivaninha de mogno limpa demais. Atrás dela, o cofre embutido, gradeado por cruz de ferro forjado que parecia zombar da santidade da casa.
Girou o dial devagar. Clique. Clique. Clique. A porta pesada se abriu com suspiro pneumático. Pastas etiquetadas com datas recentes. Puxou a de cima: “Movimentações – Setembro”.
Folheou rápido. Extratos, transferências internacionais, nomes de fiéis das missas televisionadas. Na penúltima página, linha destacada em marcador vermelho:
03/09 – R$ 1.200.000,00 – TED – Beneficiário: Lucas Almeida Ferreira – Remetente: Conta Fiduciária 47-819 (Cayman) – Assinatura digital: H.A.R.
A data era de três dias atrás. Depois do desaparecimento dela.
Não era Helena quem assinara. Alguém usara a assinatura digital dela. Alguém que ainda tinha acesso.
Ouviu a chave na porta principal da mansão. Guardou os papéis no peito, fechou o cofre, correu para a janela lateral. Saltou para o jardim de serviço segundos antes de Valério entrar. Caiu mal, o tornozelo torcendo, mas engoliu a dor e correu para a escada de serviço.
Subia com os dedos sujos de poeira antiga e cheiro de papel velho grudado na pele. O embrulho pesava contra o peito como placa de concreto. Parou no patamar entre o segundo e o terceiro andar, ouvindo o silêncio da casa como respiração contida.
Então veio o clique suave — quase educado — de um isqueiro sendo aberto no escuro abaixo.
— Você anda muito leve para quem carrega tanto peso, sobrinho.
A voz de Valério subiu pela escada como fumaça de charuto caro. Lucas apertou o embrulho e deu um passo para trás. O degrau rangeu traiçoeiramente.
Valério surgiu na curva inferior, paletó aberto, camisa branca impecável mesmo às três da manhã. A chama do isqueiro iluminava apenas o queixo e o sorriso paciente.
— Eu poderia ter mandado alguém revistar você na portaria de serviço. Mas quis ver com meus próprios olhos.
— Não sei do que o senhor está falando.
Valério fechou o isqueiro com estalo. A escuridão voltou, mas a voz continuou subindo, calma, paternal.
— O livro-razão. A capa preta. As páginas que sua prima deixou para você. Eu sempre soube que existia. Só não sabia onde Helena o escondera. Até você aparecer.
Lucas sentiu o estômago revirar.
— Helena não foi sequestrada, Lucas. Ela foi limpa. Apagada do sistema financeiro da família. O nome dela já não existe em nenhum registro que importe. E o seu… o seu está em todos os lugares errados.
Ele deu um passo à frente. A chama acendeu de novo, mais perto.
— Eu sou apenas o executor, sobrinho. O verdadeiro dono do esquema está acima de mim. E ele já autorizou a limpeza completa. Inclusive de fiadores inconvenientes.
Lucas recuou até encostar na parede fria.
— Você tem 24 horas para me entregar o livro voluntariamente. Ou será declarado cúmplice retroativo. Isso anteciparia a declaração de morte dela em dez dias. E o cartório não vai perguntar duas vezes quando vir seu nome como beneficiário final.
Valério sorriu, apagou o isqueiro e começou a descer.
— Boa noite, Lucas. Durma bem.
Ele ficou ali, encostado na parede, até o som dos passos sumir. Então correu para o quarto, trancou a porta com a chave que Valério insistira em lhe entregar “por segurança”.
Sentou-se na beira do colchão sob a luz fraca do abajur. O livro-razão ainda quente contra o peito. Tirou o fio vermelho. Abriu na página 7.
A primeira entrada do livro inteiro não era código cifrado nem transferência recente. Era uma linha simples, escrita com caneta-tinteiro de tinta vermelha — a mesma que Helena usava para assinar convites de caridade:
03/11/2022 – Abertura de conta fiduciária offshore (Cayman) – Beneficiário final: Lucas Almeida Ferreira – Valor inicial: R$ 1.800.000,00 – Assinatura autorizadora: Helena Almeida Ribeiro (procuração em branco anexa)
A data era anterior ao desaparecimento dela por quase três meses. Antes mesmo de ele voltar à cidade para o “funeral simbólico”.
Seu nome estava lá, em tinta vermelha, desde o princípio.
Não era acidente. Não era erro.
Helena o colocara como beneficiário final e fiador subsidiário antes de qualquer chantagem ser registrada nas páginas seguintes. Ela o usara como âncora moral. Como última trava para forçar a exposição do esquema quando ela própria já não pudesse mais falar.
Lucas fechou o livro com força. Pela janela entreaberta veio o ronco baixo de um motor na rua lateral. Um carro preto estacionou na esquina. Os faróis se apagaram assim que ele olhou.
Alguém o observava.
E o prazo acabara de encurtar mais uma vez.