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Chapter 1: O Testamento de Sangue

Lucas infiltra-se na mansão da família sob o pretexto de um funeral simbólico para Helena. Após ser ameaçado por Tio Valério e confinado em um quarto vigiado, ele descobre um livro-razão escondido atrás de um painel falso, revelando que o desaparecimento de Helena está ligado a um esquema de lavagem de dinheiro da igreja local. A contagem regressiva de 12 dias para a declaração de morte legal de Helena é estabelecida.

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O Testamento de Sangue

O portão de ferro da mansão rangeu — um som metálico e seco, como o estalo de um osso — enquanto Lucas cruzava o limite da propriedade. A cidade-santuário, com suas cúpulas douradas brilhando sob o sol de um fim de tarde opressor, parecia prender o ar em volta dele. Aqui, a fé pública era o véu que cobria os pecados financeiros da elite, e Lucas, o parente falido, era uma mancha indesejada naquela fachada imaculada. Ele não estava ali por convite, mas pela necessidade desesperada de encontrar Helena, a única pessoa que ainda lhe estendia a mão antes de desaparecer.

No saguão, o Tio Valério o esperava. Ele não parecia um homem de luto, mas um estrategista celebrando uma vitória iminente. Valério ajeitou o punho da camisa com uma precisão cirúrgica, o sorriso gélido não alcançando seus olhos.

— Você chegou cedo para o funeral, Lucas. Ou talvez tarde demais para ser útil — disse Valério, a voz suave carregada de veneno social. — Os advogados já redigiram os termos. A ausência de Helena será declarada morte legal em exatos doze dias. Até lá, esta mansão é um santuário de silêncio. Não tente bisbilhotar o que não lhe pertence.

Doze dias. O prazo legal para que o império da família fosse selado e a herança, protegida pelo sangue, transferida para as mãos certas. Valério sinalizou para um segurança, que escoltou Lucas até o quarto de hóspedes, um cubículo opulento que mais parecia uma cela de luxo. A porta foi trancada por fora com um clique seco que ecoou pelo corredor.

O silêncio ali dentro não era paz; era vigilância. Lucas sentiu o peso do ar, saturado pelo cheiro de cera de móveis antigos e pelo zumbido quase imperceptível de uma câmera no canto do teto. Ele não estava ali como família; era um obstáculo a ser monitorado. Caminhou até a estante de mogno, fingindo interesse pelos volumes encadernados, enquanto seus olhos mapeavam o ambiente. Pela fresta da porta, ele sentia a presença estática de Valério. Se fosse pego investigando, a exclusão do testamento seria a menor de suas preocupações.

Lucas empurrou a lateral da estante. O móvel rangeu, pesado demais, mas revelou uma irregularidade no rodapé: uma marca de fricção que não condizia com a marcenaria impecável. Ele pressionou a madeira e um clique seco ecoou. Um painel lateral cedeu, revelando um nicho cavado diretamente na alvenaria da mansão. O que ele encontrou não era uma joia ou uma carta de despedida. Era um livro-razão de capa preta, surrado pelo uso e marcado por manchas escuras.

Ao puxá-lo, o papel pareceu vibrar sob seus dedos, uma sensação tátil de perigo imediato. Ele sentou no chão, entre o painel arrancado e a estante, com o coração batendo um ritmo irregular. O livro não era um objeto de contabilidade comum; era um diário de pecados. Lucas passou o polegar pela borda das páginas e viu o brilho escuro, quase negro, sob o reflexo da lâmpada. Sangue fresco. Helena não tinha fugido; ela tinha sido arrancada dali.

Ele abriu a primeira página. Os números não eram cifras bancárias; eram códigos. Datas que coincidiam com o desaparecimento de três fiéis da paróquia local nos últimos meses, seguidas de valores exorbitantes transferidos para contas em paraísos fiscais em nome da fundação de caridade de Valério. A conexão era obscena. A igreja, o santuário da cidade, servia como o cofre de lavagem de dinheiro da família.

Um som grave e metálico ecoou pelo corredor. O relógio de pêndulo da mansão bateu as horas, selando o início da contagem regressiva. Doze dias. Lucas sentiu o sangue pulsar nas têmporas enquanto olhava para a mancha úmida no papel — um aviso deixado pelo sangue de Helena. O livro vibrava em suas mãos, e o som de passos pesados aproximando-se da porta interrompeu seu raciocínio. Ele não tinha mais tempo para a dúvida; o cerco estava se fechando, e o próximo passo de Valério seria o último.

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