A Máscara de Vidro
O ar no quarto 402 era denso, impregnado com o cheiro de mofo e desinfetante barato que parecia ser a única fragrância do centro de São Paulo. Lucas pressionou um pano úmido contra as costelas, onde o hematoma da fuga do cortiço latejava em um ritmo sincopado. O relógio no notebook, uma luz azulada e fria, marcava 119 horas e 42 minutos. O prazo de autodestruição do arquivo de Beatriz não era apenas um cronômetro; era um veredito que se aproximava a cada batida de seu coração.
Ele conectou o gravador. O áudio chiava, misturando-se à chuva que castigava a janela, uma constante paulistana que parecia querer dissolver qualquer prova de sua existência. Ele precisava da chave de descriptografia para acessar a conta offshore dos Valente, o rastro de dinheiro que provava o suborno para o desmatamento ilegal da reserva ambiental da família. Sem isso, a denúncia de Beatriz era apenas o delírio de uma herdeira problemática. Ao aplicar o software de filtragem, o ruído de fundo revelou um padrão harmônico. Lucas ajustou o equalizador, isolando a frequência. Quando o diretório raiz solicitou a senha, ele digitou a sequência baseada no tom da voz dela. O sistema processou, mas o aviso de segurança brilhou em vermelho: "Acesso não autorizado. Firewall Valente ativado. Localização logada."
O suor frio escorreu por sua nuca. Ele tinha segundos antes que a segurança privada da fundação triangulasse o IP. Lucas trocou o moletom por uma jaqueta de nylon barata, descartando o celular na lixeira de um banheiro público. Ele precisava de um canal. Ricardo, o jornalista que outrora cobrira as colunas sociais da família com um cinismo que Lucas sempre interpretara como disfarce, era sua única aposta.
O encontro aconteceu em um café de fachada industrial na Consolação. Lucas sentia o corte latejar a cada passo. Ricardo estava sentado no fundo, o rosto banhado pela luz azulada de um tablet. Ele não parecia o homem de ideais que Lucas buscava; parecia um animal acuado.
— Você está atrasado e visível — Ricardo murmurou, a voz trêmula. — Onde está o arquivo?
Lucas sentou-se, mantendo a mão sob a mesa, perto do gravador. — O Patriarca está limpando o rastro, Ricardo. O desmatamento na reserva não é apenas um crime ambiental, é o alicerce do próximo balanço financeiro deles. Se isso vazar, a herança da Beatriz desaparece.
Ricardo olhou para o relógio com uma frequência que denunciava um cronograma alheio. Lucas recuou, o instinto de sobrevivência gritando mais alto que a necessidade de exposição. Quando Ricardo ergueu a mão para sinalizar, não foi para Lucas, mas para um sedan preto que estacionou bruscamente na calçada. Dois homens de terno cinza desceram, o reconhecimento facial de seus dispositivos de segurança varrendo a área com luzes infravermelhas. O jornalista, pálido, sussurrou: — Eles me prometeram que não fariam nada com você, Lucas. Só queriam o gravador.
Lucas girou nos calcanhares, a traição queimando como ácido. Ele correu para o beco próximo ao MASP, sentindo o ar rarefeito da cidade oprimir seus pulmões. Enquanto a equipe de segurança dos Valente fechava o cerco, ele discou para o único número que restava na memória, uma ex-secretária da fundação.
— Helena, eu preciso saber onde está o Livro Negro — Lucas disse, a voz cortada pelo esforço físico.
Do outro lado da linha, o pânico era absoluto. — Lucas, você não tem ideia do que está enfrentando. Eles estão destruindo tudo. O livro... não está mais com a família. Está guardado no acervo da fundação, sob vigilância total. É uma sentença de morte, Lucas. Se você for até lá, eles não vão apenas apagar o arquivo, vão apagar você.