A Primeira Ferida
A chuva de São Paulo não lavava nada; ela apenas transformava a fuligem das avenidas em uma lama oleosa que subia pelos bueiros da zona leste, como se o próprio solo tentasse engolir os rastros do que Beatriz havia deixado para trás. Lucas corria pelo beco lateral da Rua Guaianases, o peito em chamas, a respiração cortada pelo ar úmido e pesado. O relógio em seu pulso, agora vazio, era apenas um lembrete fantasma do tempo que ele não tinha mais. O sinal de GPS do seu celular, usado para traçar a rota, funcionava como um farol aceso para a segurança privada da família Valente. Cada passo entre as poças profundas era uma aposta suicida: parar significava ser alcançado; continuar significava entregar sua posição.
O zumbido no bolso de sua jaqueta encharcada foi o veredito. Uma notificação do sistema de monitoramento da Valente. Eles haviam triangulado sua entrada no distrito. O tempo, antes uma abstração de 144 horas, agora encolhia sob a pressão da caçada. Restavam 120 horas para a autodestruição do arquivo de Beatriz. Ele avistou o número pintado com tinta spray descascada em uma porta de metal enferrujada. O cortiço. A fachada era um esqueleto de concreto exposto, ignorado pelo progresso que os Valente financiavam a poucos quilômetros dali.
Lucas arrombou a porta com o ombro, o metal rangendo em protesto, e mergulhou no corredor escuro segundos antes de um sedã preto estacionar na esquina com os faróis apagados. O cheiro de mofo e água parada era sufocante. Ele subiu as escadas de madeira podre, cada rangido soando como um tiro no silêncio da noite. No quarto 402, ele encontrou o que procurava: um gravador de plástico barato, escondido sob o estrado de uma cama que cheirava a desespero.
Ele pressionou o botão 'Play'. O chiado estático preencheu o quarto, mas logo a voz de Beatriz cortou o ruído, firme e cortante. “Se você está ouvindo isso, Lucas, o Livro Negro não é mais apenas uma lista de propinas. Eles decidiram que a terra na reserva ambiental da família não vale o custo de manutenção. Vão soterrar os relatórios de contaminação com concreto e silêncio. Eu sou a única testemunha que assinou os termos de auditoria originais. Por isso, eles não vão me deixar sair da rede de proteção deles.”
Lucas sentiu o estômago revirar. Não era apenas um escândalo financeiro; era um crime contra o solo paulistano, uma cicatriz que o Patriarca Valente estava prestes a imprimir no mapa para garantir a sucessão. O peso da revelação era absoluto, mas não havia tempo para o luto. Passos pesados ecoaram no corredor. A equipe de limpeza havia chegado.
— Ele está no fim do corredor, bloqueiem a saída de emergência — a voz do segurança era fria, desprovida de qualquer hesitação.
Lucas não esperou. Ele sabia que o prédio, uma relíquia dos anos 70, ainda utilizava o sistema de automação original da Valente. Com a mão trêmula, ele retirou o antigo cartão de acesso da carteira, aquele que ele jurara nunca mais usar. Ele se arrastou até o painel elétrico escondido atrás de um quadro de avisos, inseriu o cartão e forçou um curto-circuito massivo. O prédio mergulhou em trevas, seguido pelo estalo seco de cabos derretendo. Na confusão, ele se lançou pela janela lateral, caindo sobre um toldo de lona e depois no beco, sentindo o ombro rasgar contra uma grade de ferro. A dor era aguda, uma primeira ferida física em um jogo que até então era apenas intelectual.
Escondido atrás de uma caçamba de entulho, Lucas discou o número de Ricardo, o jornalista que ainda lhe devia favores. O celular, rachado, emitia um brilho azulado que o tornava um alvo fácil.
— Ricardo, sou eu. Tenho o que você queria. O Livro Negro não é sobre desvio de verba, é sobre a contaminação do aquífero na reserva dos Valente. Beatriz gravou a confissão antes de ser levada — sussurrou, a voz rouca.
— Lucas? Você sumiu, cara. A empresa está oferecendo uma recompensa por qualquer informação sobre a Beatriz. Onde você está? — A voz de Ricardo parecia preocupada, quase paternal.
— Estou perto da estação. Preciso que você publique isso. Se eu cair, a prova morre comigo.
Ele desligou, sentindo uma pontada de alívio. Mas, segundos depois, o som de um celular vibrando não veio de seu bolso. Veio de trás da caçamba, onde um vigia de segurança privada da Valente acabara de receber uma mensagem. A tela do homem, iluminada no escuro, exibia o ponto exato da localização de Lucas. Ele fora vendido.