O Ponto Cego
A chuva na Consolação não lavava o asfalto; ela apenas espalhava o óleo e o sangue que a cidade tentava esconder. Lucas sentiu o corte no ombro latejar — um presente da porta de vidro que ele atravessara segundos antes de a segurança dos Valente cercar o café. Ele se encolheu no fundo de um ônibus lotado, o ar viciado carregado de umidade e desespero. Ricardo não apenas o vendera; ele entregara o último fio de sanidade de Lucas por um punhado de notas sujas. No painel digital do ônibus, o tempo corria como uma hemorragia: 118 horas para o arquivo de Beatriz ser deletado. O cronômetro não era uma sugestão. Era uma sentença.
Ele desceu na Praça Roosevelt, arrastando a perna. Em um banheiro público, o espelho rachado devolveu a imagem de um homem que já não reconhecia: fuligem, suor e a palidez de quem não dorme há dias. A traição de Ricardo era a prova final de que o império Valente não apenas comprava silêncio; eles compravam a própria realidade. O "Ponto Cego" que Beatriz mencionara na nota de voz não era um lugar. Era a arrogância deles. Eles acreditavam que, em São Paulo, tudo tinha um preço e todos tinham um dono.
Horas depois, Lucas encontrou Ricardo em um café no centro histórico. O jornalista sorriu, a cordialidade tão falsa que o estômago de Lucas revirou.
— Pensei que estivessem te apagado — disse Ricardo, os olhos brilhando com a ganância de quem calcula o valor de um furo de reportagem.
— Estava ocupado demais sobrevivendo aos seus novos patrões — retrucou Lucas, deslizando um pendrive sobre a mesa gasta. — A localização do servidor de backup. O que você queria. Agora, me dê o acesso ao sistema de distribuição da Fundação.
Ricardo estendeu a mão, cego pela promessa de poder. Lucas sentiu o peso da solidão. Aquele pendrive era uma isca: continha um código de rastreamento que levaria os seguranças dos Valente a um prédio abandonado em Itaquera, um endereço que não existia nos registros oficiais. Enquanto Ricardo se afastava, Lucas sentiu o tempo encurtar: 115 horas.
O encontro com Helena, a ex-secretária de Beatriz, aconteceu no caos da estação Sé. O metrô rugia, um monstro metálico que engolia as vozes. Helena vestia um terninho cinza impecável, mas suas mãos tremiam sobre a bolsa.
— Você não entende, Lucas — ela sussurrou, a voz quase inaudível. — O Patriarca não quer apenas o arquivo. Ele quer que Beatriz desapareça da história. Se você for pego, não haverá julgamento. Haverá apenas um acidente.
— Onde está o Livro Negro? — Lucas insistiu, a voz firme apesar da exaustão. — Se ele for destruído, a Beatriz morre com ele.
Helena olhou para os lados, o medo estampado no rosto.
— Não está em um cofre bancário. Está no acervo histórico da fundação. É o pilar que sustenta a reputação da família. Eles vigiam cada leitura, cada acesso. É onde o Patriarca enterra os crimes ambientais que sustentam o império.
Lucas deixou a estação com o peso da revelação. A sede da Fundação Valente erguia-se como um obelisco de vidro temperado, um monumento à impunidade. Ele observou o fluxo de funcionários, sentindo o pulso do prédio. Ele ainda tinha o cartão de acesso antigo, um remanescente de sua vida anterior. O sistema o reconheceria como um erro de leitura, um fantasma na burocracia.
Ele deslizou pelas sombras. O cartão passou pela leitora com um clique quase inaudível. O saguão estava deserto, a segurança automatizada varrendo o perímetro. Ele alcançou a porta do acervo, o coração batendo contra as costelas feridas. Ao inserir o cartão, uma luz vermelha piscou. O som seco da trava se soltando foi seguido por um aviso no monitor do corredor: Acesso não autorizado. Alerta de intrusão enviado.
O alarme silencioso disparou. Ele estava preso no ponto cego do prédio, com a contagem regressiva pulsando no pulso e a segurança dos Valente fechando o cerco.