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Chapter 2: O Livro Atrás do Reboco

Beatriz infiltra-se na mansão e recupera o livro-razão, descobrindo evidências de que o juiz do caso de Sofia foi subornado. Ao tentar escapar, ela é interceptada por Heitor, cria uma distração, mas acaba encurralada no saguão principal por Eduardo, que revela que a manobra legal foi antecipada, deixando-a sem saída.

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O Livro Atrás do Reboco

A chuva batia contra as janelas da mansão Lane com a força de um aviso. Faltavam exatamente setenta e duas horas para que o tribunal selasse o destino de Sofia — e o de Beatriz. Eduardo já tinha os documentos de transferência prontos, e o silêncio da casa, interrompido apenas pelo estalar dos trovões, parecia uma contagem regressiva para a sua própria ruína. Beatriz contornou a ala leste, os pés pesados na lama, o coração martelando um ritmo que não permitia hesitação. Ela deslizou pela entrada de serviço, um setor negligenciado pela vigilância eletrônica de Eduardo, confiando na planta antiga que memorizara.

O cheiro de mofo e cera antiga a recebeu, um lembrete sufocante de uma linhagem que sempre preferiu o segredo à transparência. A sala de costura da avó, um santuário de agulhas e tecidos onde Sofia costumava se esconder na infância, permanecia como o ponto cego da casa. Beatriz empurrou a porta de carvalho. Lá dentro, a máquina Singer permanecia no canto, coberta por um plástico empoeirado, mas o foco de Beatriz era a lareira de mármore negro, adornada com o símbolo do pássaro sem asas. O gesso cedeu com um estalo seco sob sua espátula improvisada, revelando um oco escuro onde Sofia escondia o que não podia ser dito.

Seus dedos rasparam em algo encadernado em couro rígido, frio como a própria mansão. Ao puxar o livro-razão, o peso do objeto em suas mãos era desproporcional ao seu tamanho; era o peso de uma sentença. Ela abriu a primeira página sob a luz fraca de seu celular. Nomes de juízes locais, valores vultosos de "taxas de conveniência" e datas que coincidiam com as sentenças que mantiveram o espólio Lane intacto saltaram da página. O nome do juiz responsável pelo caso de Sofia estava grifado em tinta vermelha. A justiça não estava apenas cega; estava na folha de pagamento de Eduardo.

O som de passos firmes ecoou pelo corredor de mármore. Beatriz não teve tempo de esconder o volume. Heitor, o chefe de segurança, surgiu na porta, a silhueta maciça recortada contra a luz fria do corredor. — O que você pensa que está fazendo, Beatriz? — a voz de Heitor era um rosnado contido.

Beatriz não respondeu. Seus olhos varreram o corredor, fixando-se na estante vitoriana que sustentava rolos de tecidos pesados. Com um puxão seco, ela desequilibrou a estrutura. O móvel tombou com um estrondo ensurdecedor, uma cascata de veludos e madeira lascada que ergueu uma cortina de detritos entre ela e o homem. Ela correu, seus pés descalços conhecendo o desenho do assoalho que rangia em pontos específicos, ignorando a dor do esforço.

Ao atingir o saguão principal, o ar se tornou irrespirável. O som estridente do alarme de incêndio rasgou a mansão, misturando-se ao estalo da alvenaria sendo perfurada por algum sistema de bloqueio que ela não previra. Eduardo apareceu no mezanino, impecável, observando-a como um predador que finalmente encurralou a presa. — Tarde demais, priminha — ele disse, com um sorriso que não alcançava os olhos. — O juiz assinou a antecipação. A demolição começa em dez minutos.

Beatriz abraçou o livro contra o peito, o coração martelando contra as costelas. Os seguranças de Eduardo bloqueavam todas as saídas, fechando o círculo. Ela era uma fugitiva marcada, e o tempo restante, que ela acreditava ser de setenta e duas horas, acabara de ser reduzido a um instante de terror absoluto.

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