A Transmissão do Vazio
O lacre da Polícia Civil na porta do estúdio de livestreaming de Sofia ainda cheirava a adesivo sintético e desespero. Beatriz ignorou a fita amarela, a mão tremendo enquanto forçava a fechadura eletrônica com um clipe de papel modificado. Faltavam exatamente setenta e duas horas para que a declaração de ausência de Sofia fosse oficializada. Uma vez vencido esse prazo, a gestão do espólio Lane — e todos os segredos enterrados nas fundações da mansão — passaria legalmente para Eduardo. Se ele assumisse o controle, o rastro de corrupção que Sofia tentava expor desapareceria com ela, enterrado sob contratos assinados em sangue e silêncio.
Beatriz entrou. O ar condicionado do estúdio cortava a umidade abafada de São Paulo, mas não o frio que subia por sua espinha. O local era uma fortaleza de vidro e aço banhada por luzes LED azuis, projetada para vender uma imagem de perfeição que Sofia desprezava. O silêncio ali dentro era absoluto, denso como se o próprio espaço estivesse prendendo a respiração. Ela correu até o terminal central, os dedos saltando sobre o teclado mecânico. Ela não tinha tempo para sutilezas; o sistema de segurança da família já deveria ter detectado a intrusão.
— Vamos, Sofia. Onde você se escondeu? — sussurrou Beatriz, a voz rouca pelo estresse.
O servidor privado, uma caixa preta de alumínio escondida sob a bancada de edição, zumbia sob seus dedos. Ela ignorou o aviso de acesso não autorizado que piscava em vermelho na tela principal. Seus olhos varreram os diretórios de transmissão. Não havia sinal de sequestro, nem de fuga comum. Havia um loop. Um feed de baixa resolução, transmitindo uma imagem estática de uma parede de alvenaria bruta nos porões da mansão.
Antes que ela pudesse isolar o arquivo, a porta de acesso foi aberta com um estrondo metálico. Eduardo entrou, o terno impecavelmente alinhado, os olhos varrendo o ambiente com a precisão de um predador que já considerava a carcaça sua.
— Você nunca teve permissão para estar aqui, Beatriz — disse ele, a voz destilando um desdém que ele cultivava como uma arma. Ele não olhou para ela, focando nos servidores que zumbiam como colmeias inquietas. — A perícia lacrou este local. O que você acha que vai encontrar? Algum segredo que a Sofia deixou para a prima que sempre foi a sombra da família?
Beatriz sentiu o sangue pulsar nas têmporas, mas manteve o corpo bloqueando parcialmente o monitor principal. Eduardo segurava uma pasta de couro: os papéis de transferência de posse que ele pretendia assinar assim que o relógio da herança batesse o ponto final.
— A polícia encerra o caso amanhã, Eduardo. Você sabe disso — Beatriz respondeu, forçando a voz a soar firme. — Você quer que o mundo acredite que ela fugiu, mas a verdade é que você está desesperado para que ela não seja encontrada. Por que a pressa com o inventário?
Eduardo deu um passo à frente, o sorriso não alcançando seus olhos gelados. Ele olhou para o monitor, e por um milésimo de segundo, sua máscara de controle falhou. Ele não sabia o que estava no feed. O desconhecimento dele era a vantagem de Beatriz.
— Dez minutos, Beatriz. É o tempo que a segurança levará para chegar aqui e te arrancar desse prédio. Se você for pega com o hardware, a acusação de obstrução de justiça será o menor dos seus problemas.
Ele girou nos calcanhares e saiu, deixando a porta aberta. Beatriz voltou-se para a tela. O feed da câmera, focado na parede do jardim de inverno, tremeluzia. Ela tinha segundos antes que o sistema de segurança reiniciasse.
Ali estava. Um traço disforme em giz branco, quase invisível sob a luz noturna. Beatriz prendeu a respiração. Não era vandalismo; era o código que elas usavam aos dez anos, um desenho de um pássaro sem asas. O coração disparou quando a geometria do símbolo se alinhou com a planta da mansão em sua mente. Não era uma marcação aleatória. Era a localização exata do compartimento oculto atrás da lareira, o cofre onde o livro-razão da família repousava. O desaparecimento de Sofia não fora um acidente. Fora um chamado. E se Beatriz não chegasse lá primeiro, Eduardo encontraria a prova final antes que o sol nascesse.