Novel

Chapter 3: O Preço da Verdade

Beatriz escapa da mansão com o livro-razão, mas descobre que Eduardo bloqueou seus recursos financeiros e antecipou a audiência judicial de Sofia. O livro revela que o juiz do caso é um colaborador direto de Eduardo, encurralando Beatriz em um prazo de 36 horas.

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O Preço da Verdade

O mármore do saguão da mansão Lane, outrora símbolo de um refúgio familiar, agora parecia o piso de uma arena onde Beatriz era a presa. O ar estava estagnado, impregnado com o cheiro de cera de assoalho e segredos podres. Eduardo bloqueava a saída principal, o corpo relaxado em uma postura de quem já se considerava o único herdeiro, girando as chaves do portão eletrônico com uma lentidão calculada.

— Você sempre teve um gosto peculiar por ruínas, Beatriz — disse ele, a voz aveludada carregando a lâmina de uma ameaça que ele mal se dava ao trabalho de disfarçar. — Mas invadir a propriedade privada e furtar documentos? Isso não é mais rebeldia. É um crime que o juiz Valente não vai ignorar. Ele está na sala de jantar agora, esperando pela assinatura final que oficializa o desaparecimento de Sofia. Entregue o livro-razão e talvez eu convença a segurança a não chamar a polícia.

Beatriz sentiu o volume rígido do livro contra suas costelas. O objeto parecia pulsar, um coração de papel carregado de provas que queimavam sob sua jaqueta. Ela não precisava abrir o tomo para saber que a assinatura de Valente na transferência do espólio era a peça final do golpe. O juiz não era um mediador; era um funcionário de Eduardo.

— O juiz Valente é um homem ocupado, Eduardo — ela forçou a voz a sair firme, enquanto seus dedos buscavam, na penumbra da coluna de sustentação atrás dela, o painel de controle que ela conhecia desde a infância. — Mas ele não vai assinar nada se o alarme de incêndio for acionado e a ala principal for evacuada por protocolo de segurança. A mansão é um labirinto, mas eu conheço as saídas de emergência que você esqueceu de atualizar.

Com um movimento rápido, ela pressionou o botão manual. O som estridente da sirene rasgou o silêncio, criando o caos necessário. Enquanto a segurança corria em direção ao saguão, Beatriz disparou para as sombras do corredor de serviço, ignorando os gritos de Eduardo. Ela alcançou o jardim, mas a liberdade foi curta: seu carro, estacionado sob o carvalho, estava com os pneus vazios e o motor sabotado. Sem alternativa, ela correu para a chuva, o livro de couro surrado apertado contra o peito como um escudo.

Horas depois, o cheiro de mofo e desinfetante de um hotel de beira de estrada confirmava sua nova realidade. Beatriz trancou a porta com o ferrolho enferrujado. Suas contas bancárias estavam bloqueadas; o cartão fora recusado, forçando-a a deixar seu anel de formatura — a última lembrança física da linhagem Lane — como garantia pela estadia. O custo da verdade estava subindo a cada minuto.

Sob a luz fraca de um abajur, ela abriu o livro na marca de couro gasta. O símbolo do pássaro sem asas estava gravado na contracapa. Seus olhos percorreram as linhas de caligrafia apressada de Sofia: J.M. - Aprovador final - Pagamento via offshore - Projeto S. O sangue fugiu de seu rosto. J.M. era o Juiz José Menezes, o magistrado que presidia o caso. Não era apenas um suborno; era uma estrutura.

Beatriz mal teve tempo de processar a revelação quando o rádio do hotel, sintonizado em um canal de notícias local, soltou a atualização: o juiz Menezes acabara de antecipar a audiência de encerramento do inventário. O prazo legal que ela acreditava ser de 72 horas fora cortado pela metade por uma petição de urgência protocolada por Eduardo. O sistema jurídico era o braço armado de seu primo, e o tempo para impedir a transferência total do espólio estava escorrendo por entre seus dedos. Ela não estava apenas caçando a verdade; ela estava correndo contra uma execução deliberada de sua própria existência no clã. Quando as sirenes da polícia ecoaram ao longe, ela soube: Eduardo não estava apenas a perseguindo, ele estava fechando o cerco.

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