O Cerco Final
O visor do notebook de Marta tremeluzia, projetando uma luz azulada e doentia sobre o rosto tenso de Lívia. O contador no canto da tela era uma lâmina guilhotinando o tempo: 04:17:12. Quatro horas. O prazo para a declaração de óbito de Beatriz não era apenas um trâmite cartorial; era o selo final da falência moral dos Valença.
— Ele não está apenas transferindo o que resta — disse Marta, a voz rouca pelo cigarro e pela exaustão. Ela apontou para a linha de código que corria na tela, uma cascata de números que Lívia não compreendia, mas cujas consequências sentia no estômago. — Ele está liquidando a estrutura. A conta 'B.V.' não é um destino, é um dreno. O servidor de controle está fisicamente na mansão. Álvaro Salles não precisa de senhas externas se ele tiver acesso ao hardware original na biblioteca.
Lívia sentiu o peso do livro-caixa na mochila. A mancha de sangue na capa parecia pulsar.
— Se eu não chegar lá, ele apaga a existência da Beatriz e a minha dívida se torna a única herança — Lívia levantou-se, a cadeira arranhando o piso de madeira. — Ele quer que eu seja a culpada pela ruína, a ovelha negra que fugiu com os despojos.
— Você vai entrar na cova dos leões sem proteção — Marta avisou, embora seus olhos já buscassem a chave do carro. — Rafael cercou a mansão. Ele sabe que você tem o livro.
— Ele sabe que eu tenho o livro, mas não sabe que eu sei onde o servidor está. A arrogância dele é o nosso único trunfo.
O trajeto até o bairro nobre foi um exercício de paranoia. Lívia observava cada retrovisor, cada farol que se aproximava com a intensidade de quem espera o golpe final. Ao chegar aos muros altos da Mansão Valença, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som distante de um relógio de parede que parecia ecoar em sua própria mente. Ela não usou o portão principal. Escalou a trepadeira lateral, o mesmo caminho que usara na infância para fugir das aulas de etiqueta, sentindo o ar úmido e o cheiro de mofo que sempre definira a decadência daquela família.
Dentro, a mansão era um organismo jurídico em estado de putrefação. Ela deslizou pelos corredores, evitando os sensores de movimento que Rafael instalara. O objetivo era a biblioteca. O painel falso, escondido atrás de uma estante de clássicos gregos, era a chave. Seus dedos, trêmulos, encontraram a mola oculta. Com um rangido metálico, a parede cedeu.
Não era um cofre. Era um nicho estreito, um espaço de manutenção que Beatriz transformara em um bunker de dados. Cabos emaranhados, monitores improvisados e o zumbido constante de um servidor central. Lívia iluminou o local com o celular. No centro, uma cadeira vazia, um diário aberto e uma xícara de café ainda morna.
— Beatriz? — ela chamou, a voz falhando.
Uma sombra se moveu atrás de uma coluna de servidores. Beatriz surgiu, a pele pálida, os olhos brilhando com uma lucidez perigosa. Ela não parecia uma vítima. Parecia uma arquiteta observando o desabamento de sua própria obra.
— Você demorou — disse Beatriz, sem qualquer traço de surpresa. — Eu precisava ter certeza de que você teria coragem de vir até aqui, Lívia. O servidor está pronto. A transferência está em 90%. Se você tocar nesse teclado agora, a falência dos Valença se torna pública e o esquema do Álvaro desmorona. Mas você terá que escolher: salvar a mim ou salvar a sua reputação.
Lívia olhou para o relógio: 03:45:00. O tempo estava acabando, e a verdade era um peso que ela não tinha certeza se conseguiria carregar.