A Aliança Inesperada
O ar na sala de arquivos da delegacia era uma mistura sufocante de papel mofado e ozônio, o cheiro de uma burocracia que apodrecia em tempo real. Marta Nogueira, com os olhos injetados de cafeína e insônia, batia teclas com uma fúria calculada. Lívia Azevedo observava o cursor pulsar na tela, um batimento cardíaco eletrônico que contava os segundos para a ruína total.
— Achei — a voz de Marta cortou o silêncio, rouca e cortante. — O Dr. Álvaro não está apenas administrando o espólio. Ele está drenando a conta offshore das Ilhas Cayman agora mesmo. Ele está usando a burocracia do desaparecimento da Beatriz como uma peneira: cada saída de capital é justificada como 'imposto sucessório' ou 'taxa de custódia'.
Lívia sentiu o estômago revirar. Na tela, uma sucessão de códigos Swift e carimbos digitais confirmava a estratégia. A senha 'B.V.' que ela extraíra do livro-caixa de Beatriz não era apenas um código de prontuário médico; era a chave mestra para a liquidação final. Se aquela transferência fosse concluída, a fortuna dos Valença — ou o que restava da farsa — desapareceria em um vácuo jurídico, deixando para trás apenas uma herdeira morta em um processo encerrado por falta de provas.
— Ele está limpando a casa antes da declaração oficial de óbito — disse Lívia, a compreensão atingindo-a como um golpe físico. — Se ele mover esse montante, não sobrará nada para expor a falência da família. O crime se tornará invisível.
O ambiente, antes um refúgio, tornou-se uma armadilha quando o celular de Marta vibrou. Ela leu a notificação e o sangue drenou de seu rosto. Não era um aviso comum; era uma ordem de suspensão administrativa vinda diretamente da Corregedoria, assinada por Rafael Valença. O cerco policial não era mais uma ameaça abstrata; viaturas estacionavam na rua, focos de luz cortando a penumbra do escritório improvisado. Rafael não estava apenas caçando-as; ele estava usando a lei como um trator para esmagar qualquer rastro da investigação de Marta.
— Ele sabe que estamos aqui — murmurou Lívia, o peso do livro-caixa contra seu quadril parecendo um lembrete do perigo. — Ele não quer negociar. Ele quer enterrar as evidências antes que o banco feche a janela de transferência.
Elas não tinham tempo. Marta, ignorando o aviso de suspensão, forçou a entrada em um terminal de acesso restrito da agência bancária privada, um ato de insubordinação que custaria sua carreira — e talvez sua liberdade. A senha 'B.V.' brilhou no monitor, mas o sistema travou. O brasão dos Valença, estilizado em zeros e uns, exigia uma autorização que o banco já estava negando.
— Eles estão bloqueando o acesso do lado de dentro — Marta sibilou, os dedos voando. — Álvaro está movendo o dinheiro para o exterior, para uma conta fantasma que não está no nome da família, mas na dele.
Lívia abriu o livro-caixa, as páginas amareladas vibrando sob a luz fria. Seus olhos varreram as anotações de Beatriz até que uma marca quase imperceptível de grafite saltou aos olhos: um compartimento oculto, um endereço que não constava nos registros oficiais, mas que estava enterrado na estrutura da própria mansão. A transferência de Álvaro era a prova final, mas a chave para o paradeiro de Beatriz não estava no banco. Estava onde tudo começou.
— Marta, pare — Lívia disse, com a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Se ele está transferindo agora, ele precisa de uma confirmação física. Ele não está apenas movendo números; ele está preparando o terreno para fugir. E ele não vai deixar a Beatriz para trás se ela for o único elo que pode prendê-lo.
O terminal emitiu um bipe final, confirmando a transferência externa. O dinheiro dos Valença havia evaporado, mas a tela revelou o destino final da operação: um servidor privado localizado fisicamente dentro da Mansão Valença. O esconderijo de Beatriz não era uma clínica, nem um hospital. Era a própria casa, um compartimento oculto entre as paredes que Lívia nunca ousara tocar. O relógio batia os cinco dias restantes para o óbito oficial, mas o perigo agora era imediato: elas tinham a prova, tinham a rota, e estavam indo direto para a boca do lobo.