A Chave de Sangue
O escritório de mogno da mansão Valença não era um refúgio; era uma câmara de pressão. Lívia Azevedo encarava o livro-caixa aberto sobre a mesa, a mancha de sangue na capa parecendo mais escura sob a luz fria do abajur. Faltavam onze dias para o prazo legal de desaparecimento de Beatriz se tornar uma sentença de morte civil. Onze dias para que a herança fosse confiscada pelo espólio e a verdade sobre o desaparecimento de sua irmã fosse enterrada sob toneladas de burocracia.
Lívia tateou a lombada do livro, sentindo a irregularidade que Beatriz, em sua crueldade metódica, havia escondido sob o couro. Com a ponta de um abridor de cartas, ela forçou a costura. Um estalo seco — o som de um segredo sendo violado — ecoou no silêncio da casa. O fundo falso cedeu, revelando um cartão de memória e um bilhete curto, escrito na caligrafia inclinada de Beatriz: B.V. é o caminho, mas o cofre não guarda dinheiro, Lívia. Guarda a fundação desta casa.
O B.V. não era uma assinatura. Era uma trilha bancária. Enquanto conectava o cartão ao seu notebook, a tela exibiu uma série de desvios financeiros que sustentavam a fachada da família Valença. Lívia sentiu o estômago revirar. Ela não estava apenas lendo números; estava lendo a prova de que a mansão, o nome e a fortuna da família eram construídos sobre terras ilegalmente apropriadas e lavagem de dinheiro público. Cada linha no livro-caixa era um parafuso sendo solto da estrutura que Rafael tentava manter de pé.
Um ruído no corredor a fez fechar o notebook. Rafael não batia; ele se anunciava com o silêncio de quem era dono do ar. Ele parou no umbral, o terno impecável, os olhos fixos na mesa.
— Você parece confusa, Lívia — a voz de Rafael era uma carícia de lâmina. — A morte da sua irmã não é um quebra-cabeça para você resolver. É um processo jurídico que o Álvaro está conduzindo. Deixe-o em paz.
— Onde está o Davi? — ela disparou, ignorando a autoridade dele. — Ele deveria ter voltado da entrega há uma hora.
Rafael sorriu, um gesto que não alcançava os olhos. — O motorista? Ele precisou de férias. Súbitas. Você está isolada aqui, Lívia. E, pelo seu próprio bem, é melhor que continue assim.
Lívia não esperou. Assim que ele se retirou, ela correu para o pátio lateral. O carro de Davi estava lá, vazio. O banco ajustado, a garrafa de água no console, o celular ausente. O motorista não tinha saído de férias; ele tinha sido removido. O custo daquela informação tinha sido o único aliado que lhe restava.
Ela voltou para o arquivo morto, no porão, o único lugar onde a vigilância de Rafael falhava por ser um labirinto de documentos esquecidos. Entre pastas de cartório e carimbos de cera, ela encontrou o documento que selaria seu destino: o registro de óbito de Beatriz. Já preenchido. Já assinado. Com data marcada para daqui a nove dias.
O relógio não estava apenas correndo; ele estava sendo manipulado. A cada descoberta, o preço aumentava, e a rede de proteção dos Valença se fechava. Enquanto segurava o documento falso, a consciência de que Beatriz não estava apenas desaparecida, mas sendo enterrada pela burocracia, a atingiu com a força de um veredito. Ela não estava apenas caçando uma irmã; estava correndo contra o tempo para impedir que um crime institucional se tornasse, perante a lei, um fato consumado. O prazo era um garrote, e ele estava apertando.