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Chapter 2: O Preço da Verdade

Lívia tenta entregar o livro-caixa à polícia, mas descobre que a Delegada Marta está a serviço dos Valença. Ao retornar, é confrontada por Rafael, que a ameaça com uma internação forçada. Lívia descobre que o livro aponta para um cofre bancário, mas o custo da informação é imediato: seu motorista, Davi, é levado pelos capangas de Rafael, deixando-a isolada e sob vigilância direta.

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O Preço da Verdade

O relógio de parede no saguão da Delegacia de Crimes contra o Patrimônio não marcava apenas o tempo; ele contava o que restava da vida de Lívia Azevedo. Nove e dez da manhã. Faltavam exatamente doze dias para que o desaparecimento de Beatriz fosse legalmente consolidado, um prazo inegociável que transformaria a fortuna dos Valença em um cofre selado e, possivelmente, a tornaria a próxima vítima da sucessão.

Lívia apertou o livro-caixa contra as costelas, o couro gasto da capa roçando sua pele sob o casaco. A mancha de sangue seco, uma marca escura e irregular, parecia pulsar contra seu peito. Era a prova de que o desaparecimento de sua irmã não era uma fuga, mas uma execução.

— Quero registrar uma evidência — disse Lívia, a voz cortando o ar viciado da delegacia, carregado de mofo e café queimado.

O escrivão de plantão nem se deu ao trabalho de desviar o olhar do monitor. Ele apenas gesticulou em direção à sala da Delegada Marta Nogueira. Marta estava parada na porta, observando a cena com uma neutralidade que não era técnica, mas calculada. Ela era a guardiã da ordem dos Valença dentro daquela repartição.

— O protocolo exige agendamento, Lívia — a voz de Marta era polida, uma lâmina envolta em veludo. — Trazer papéis antigos para cá só vai aumentar o sofrimento da sua família. Não queremos que você tenha outro colapso público, quer?

O brilho nos olhos da delegada confirmou o que Lívia temia: a polícia não era um refúgio, era uma extensão da mansão. Marta não estava ali para investigar; estava ali para conter. Ao sair, Lívia sentiu o peso do livro como uma sentença de morte. Cada passo para fora da delegacia era um passo mais perto da vigilância total.

De volta à residência, a atmosfera era de uma prisão de luxo. A mansão, com seu cheiro de cera de abelha e decadência, parecia ter se fechado sobre ela. Antes que pudesse alcançar a segurança de seu quarto, a silhueta de Rafael bloqueou o corredor. Ele não parecia um irmão; parecia um carcereiro em traje de gala.

— Você tem mania de procurar problemas onde eles já foram resolvidos — ele disse, a voz baixa, o tom carregado de uma ameaça que ele nem se dava ao trabalho de esconder. — Se eu chamar a doutora da família para avaliar sua instabilidade, não haverá tribunal que questione minha decisão. Entregue o que quer que esteja carregando, ou a porta do seu quarto será a única que você verá pelos próximos doze dias.

Lívia sentiu o sangue gelar. Rafael não estava apenas protegendo o patrimônio; ele estava apagando rastros de um assassinato. Ele sabia que ela tinha algo. Ela passou por ele, mantendo o queixo erguido, mas a ameaça de confinamento pairava como uma névoa.

Já no isolamento do closet, sob a luz de uma lanterna precária, ela abriu o livro-caixa. As páginas estavam cheias de números, datas e uma sigla recorrente: 'B.V.'. Não era apenas Beatriz Valença. Era uma trilha de desvios que apontava para um cofre bancário fora do controle direto da mansão. O coração de Lívia disparou. Ela precisava de uma ponte para chegar a esse cofre antes que o prazo de doze dias expirasse.

Na garagem, ela encontrou Davi, o motorista. A tensão era palpável.

— Se eu conseguir provar o que Beatriz deixou aqui, o cofre bancário pode encerrar essa história — ela murmurou, a urgência vencendo a prudência. — Preciso de uma ponte, Davi.

O motorista empalideceu, seus olhos desviando para a porta da garagem que se abria com um estrondo. Rafael entrou, impecável, com um sorriso que não alcançava os olhos.

— Cofre bancário? — ele repetiu, a voz carregada de um prazer sádico. — Agora a minha irmã vai passar a se preocupar com finanças. É uma pena que o Davi não vá mais poder te levar a lugar nenhum.

Lívia sentiu o chão se abrir. Davi foi retirado da garagem pelos seguranças antes que ela pudesse dizer uma palavra. Rafael a observava de longe, imóvel, enquanto ela escondia o livro-caixa dentro de uma caixa de joias antiga, no fundo do closet. Ele não precisava confiscar o livro agora; ele sabia exatamente onde ela estava, e o relógio da mansão, implacável, marcava o início da contagem regressiva para a sua própria anulação.

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