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Chapter 1: O Eco nas Paredes

Lívia Azevedo confronta a família Valença durante um velório simbólico pela irmã desaparecida, Beatriz. Após ser humilhada por Rafael, ela invade a biblioteca e descobre um livro-caixa que detalha as operações criminosas da família. O advogado Álvaro Salles a avisa do perigo, mas Lívia encontra uma mancha de sangue fresca na capa do livro, confirmando que Beatriz foi silenciada. Rafael observa tudo da porta, selando o início do confronto.

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O Eco nas Paredes

O relógio de pêndulo na sala de jantar não marcava o tempo; ele o consumia. Toc. Toc. Toc.

Lívia Azevedo contava os segundos. Beatriz estava desaparecida há quarenta e oito horas. O prazo legal para a declaração de ausência — o gatilho jurídico que entregaria o espólio dos Valença a quem estivesse mais perto da caneta — era de doze dias. Doze dias até que a fortuna, o nome e os segredos da família fossem selados em um cofre que Lívia jamais conseguiria abrir.

Ela atravessou o salão. A mesa estava posta para um velório simbólico, uma encenação de luto que cheirava a lírios caros e hipocrisia. Rafael Valença, sentado na cabeceira, observava sua aproximação com a mesma desatenção que se dedica a um inseto incômodo.

— Ela sempre faz isso — disse Rafael, a voz projetada para que os tios e primos ouvissem. — Chega como se tivesse algum lugar à mesa. Como se a ausência da Beatriz fosse um convite para a sua presença.

Lívia sentiu o calor subir pelo pescoço, mas manteve a postura. Naquela casa, a humilhação pública era a arma preferida; reagir era admitir a derrota. Ela parou atrás da cadeira vazia de Beatriz.

— A situação exige prudência, Lívia — continuou Rafael, girando a taça de cristal. — A família não pode ficar exposta a decisões precipitadas. Muito menos a interferências de quem não tem legitimidade.

— Legitimidade? — Lívia sustentou o olhar dele. — Você fala como se estivesse lendo um testamento que ainda não foi assinado. Beatriz não sumiu por capricho, Rafael. Ela foi silenciada.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. O tio Ernesto pigarreou, desconfortável, e a mãe de Rafael apertou a bolsa com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Rafael sorriu, um gesto fino e desprovido de qualquer calor.

— Você está aqui por caridade, Lívia. Não confunda isso com autoridade. O Dr. Álvaro está cuidando de tudo.

Lívia não esperou pela próxima ofensa. Ela se virou e saiu, o som de seus passos ecoando no mármore como uma sentença. O corredor para a biblioteca parecia mais longo do que o habitual, as paredes forradas de madeira escura parecendo fechar-se sobre ela. Ela não viera por instinto; viera porque a última mensagem de Beatriz — um código truncado sobre "registros enterrados" — não era um delírio, mas um aviso.

Na biblioteca, o ar era denso, impregnado de cera e papel velho. Ela conhecia a mansão como um organismo jurídico; cada painel, cada viga, era uma peça de um processo. Ela tateou a estante atrás de uma fileira de enciclopédias até encontrar a falha: um painel de madeira que não alinhava perfeitamente com o rodapé. Com um esforço, ela forçou a borda. A madeira cedeu com um estalo seco.

Dentro do vão, um volume encadernado em couro escurecido. Um livro-caixa.

Lívia o abriu. Não eram contas domésticas. Eram registros de subornos, lavagem de dinheiro e pagamentos a intermediários, datados até a véspera do desaparecimento de Beatriz. A fortuna dos Valença não era uma herança; era uma operação criminosa. No meio das páginas, uma anotação marginal: “B.V. — resolver antes da sucessão.”

O coração de Lívia disparou. A porta da biblioteca se abriu.

Dr. Álvaro Salles entrou, a expressão neutra de um homem que nunca precisava levantar a voz. Ele parou ao ver o livro nas mãos dela.

— Eu imaginava que encontraria você aqui — disse ele, a voz baixa. — Mas a lei não funciona no ritmo da sua ansiedade, Lívia. Doze dias. Esse é o prazo. Irrevogável. Se você sair desta biblioteca com isso, vai entrar em guerra com pessoas que não perdem.

— Já estou em guerra — ela respondeu, a voz firme.

Álvaro a observou, calculando o risco. Ele deu um passo para o lado, abrindo passagem, mas o aviso estava dado.

Lívia voltou para a mesa, o livro aberto. Precisava de algo mais, algo que provasse a fraude antes que o prazo expirasse. Ao folhear as páginas, seus olhos pararam na capa interna. Uma mancha pequena, vermelha, ainda úmida, brilhava sob a luz da luminária. Sangue.

Beatriz estivera ali. O livro não era apenas prova; era uma ferida aberta.

Lívia fechou o volume com as mãos trêmulas. O relógio de pêndulo, lá fora, deu um toque grave. Ela ergueu o olhar e viu, no reflexo do vidro da estante, a silhueta de Rafael parada na porta, observando-a em silêncio. Ele não se moveu. Ele não precisava. Ele sabia que ela sabia.

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