O Labirinto Burocrático
O ar no Cartório Central da Capital tinha o cheiro adocicado de papel velho e descaso institucional, uma fragrância que sempre mascarava a corrupção. Lívia Azevedo apertou a bolsa contra o corpo, sentindo a quina rígida do livro-caixa de Beatriz pressionar suas costelas. Eram 10h da manhã do segundo dia de um pesadelo que ela não havia escolhido, mas que agora a obrigava a navegar em um labirinto de burocracia forjada. O nome de Beatriz piscava no sistema como uma promessa de silêncio eterno.
— O sistema está fora do ar, senhorita Azevedo — disse o funcionário, um homem de pele pálida e óculos que pareciam uma barreira entre ele e a realidade. Ele nem sequer olhou para ela, focando no monitor de tela verde que piscava com uma lentidão irritante.
— O sistema não está fora do ar — retrucou Lívia, a voz firme, embora suas mãos estivessem úmidas. — Vocês apenas o bloquearam para pedidos de acesso externo. Eu preciso do registro de óbito de Beatriz Valença. Agora.
O homem soltou um riso curto, um som seco que ecoou contra o mármore frio do balcão. — Beatriz Valença? Ela é uma pessoa pública, Lívia. O processo de sucessão está em segredo de justiça. O Dr. Álvaro Salles foi muito claro sobre as restrições.
Lívia sentiu o reflexo de seu próprio rosto no vidro temperado do balcão. Estava pálida, com olheiras profundas, uma imagem distorcida de quem ela era há apenas uma semana. A elite urbana não gostava de ver a sujeira exposta, e ela era a própria sujeira que Rafael tentava varrer para debaixo do tapete. Sem dizer uma palavra, ela deslizou a capa do livro-caixa pelo vidro, expondo a mancha de sangue seco e a anotação cifrada que ligava o cartório a depósitos recorrentes em uma clínica privada. O funcionário empalideceu instantaneamente, o riso morrendo na garganta. Ele não precisava ler o conteúdo; ele reconhecia o selo da família.
— Siga-me — ele sussurrou, a voz trêmula. — Pelo corredor de serviço.
O trajeto até o arquivo morto era um túnel de caixas úmidas e carimbos esquecidos. Ali, entre o pó e o silêncio, o escrivão admitiu o que Lívia temia: o registro de óbito não era um erro, era um projeto.
— O senhor Rafael foi explícito: qualquer movimentação suspeita nos registros de óbito deve ser reportada imediatamente — o escrivão confessou, as mãos suando sobre a pasta de protocolos.
Lívia não recuou. Ela invadiu o espaço pessoal do homem, ignorando o perigo. — Rafael não está aqui. E se você não me der o nome da clínica onde Beatriz está sendo mantida, a próxima página que eu entregar não será para você, mas para a promotoria pública. Eu tenho o rastro completo dos depósitos. Escolha: sua aposentadoria ou uma cela em Bangu.
O escrivão engoliu em seco e, com um clique trêmulo, abriu o terminal de consulta restrita. O celular de Lívia vibrou no bolso — uma notificação seca: Rafael já sabe que você esteve aqui. O tempo estava se esgotando, e a mansão, antes um lar, agora era uma prisão.
Lívia avançou sobre o monitor de tubo, cujos zumbidos agudos pareciam reverberar dentro de suas têmporas. Seus olhos varreram a tela com voracidade. Ali estava: o fluxo de validação patrimonial. O nome de Beatriz não aparecia como "desaparecida", mas como "paciente em regime de custódia privada, sob tutela de sucessão antecipada". A autorização de sigilo absoluto tinha a assinatura digital do Dr. Salles, datada de três dias atrás. O estômago de Lívia deu um nó violento.
— Mais rápido — ela exigiu, o coração martelando contra as costelas.
O escrivão obedeceu, e o documento final surgiu na tela, nítido e cruel. Não era apenas uma tutela; era uma sentença. O óbito de Beatriz já estava preenchido, assinado e protocolado, com data marcada para daqui a exatamente nove dias. O sistema não estava registrando uma morte; ele estava programando o fim da existência legal de sua irmã para que a herança pudesse ser liquidada sem obstáculos.
Ao sair do cartório, com a cópia do documento escondida sob a jaqueta, Lívia sentiu o peso do relógio. Nove dias. Nove dias para transformar a farsa em verdade ou ser enterrada junto com o segredo dos Valença. Enquanto ela caminhava em direção à saída, sua tela acendeu novamente. Uma foto sua, saindo do cartório, acabara de ser enviada para um grupo de imprensa. A caçada havia mudado de nível.