Chapter 7
O ar no escritório portuário era denso, carregado com o cheiro de maresia e óleo industrial — um contraste visceral com o mármore estéril da sede da Holding Valente. Ricardo Salles, o CEO cujas decisões até ontem ditavam o destino de milhares, parecia encolhido em sua cadeira de couro desgastado. Suas mãos, antes impecavelmente cuidadas, tremiam ao segurar o copo de uísque barato que Arthur lhe servira como um insulto final.
— O jogo acabou, Ricardo — disse Arthur, sua voz tão fria quanto o aço das vigas do armazém. Ele deslizou uma pasta de couro sobre a mesa de madeira batida. — Sotto não quer apenas a sua cadeira. Ele quer o seu pescoço para selar a auditoria de amanhã. Ele já preparou o seu sucessor e o seu processo de expulsão por má conduta.
Salles abriu a pasta. Seus olhos percorreram a análise forense da assinatura na ata da diretoria. O software de verificação de traços digitais, uma ferramenta que Arthur desenvolvera em segredo, não deixava margem para dúvidas: a assinatura de Salles fora replicada via algoritmo, uma fraude grosseira executada pelo departamento de TI sob ordens diretas de V.M. Sotto.
— Isso… isso é impossível — Salles sussurrou, a voz falhando. — Ele me prometeu a diretoria vitalícia.
— Promessas feitas a peões servem apenas para mantê-los no tabuleiro até que o sacrifício seja necessário — Arthur rebateu, inclinando-se para a frente. — Entregue-me a senha de acesso aos registros digitais da diretoria. Agora. Se você fizer isso, eu garanto que a fraude de 1998 será a única coisa que o conselho verá amanhã. Sotto cairá, e você… bem, você será apenas um homem que cometeu erros, não um bode expiatório que apodrecerá na prisão.
Salles encarou o abismo. O pânico cedeu lugar a uma resignação gelada. Com dedos trêmulos, ele digitou uma sequência em um terminal portátil e a empurrou para Arthur. A traição estava selada.
*
Às 05:45 da manhã, o saguão da sede da Holding Valente parecia um mausoléu. Arthur e Salles entraram sob o olhar gélido dos seguranças. O edifício, ainda mergulhado na penumbra, pulsava com a tensão da auditoria iminente. Helena Valente observava das sombras da galeria superior, sua postura rígida como uma estátua de mármore. Ela não disse uma palavra, mas o leve aceno de cabeça ao ver o envelope nas mãos de Arthur confirmou o que ele precisava: o terreno estava preparado.
Dois seguranças privados, contratados diretamente pela gestão de Sotto, bloquearam o acesso à sala de reuniões. Seus corpos eram paredes de músculo.
— O acesso à diretoria está restrito — um deles rosnou, a mão pousada no rádio.
Arthur não parou. Ele sacou um dispositivo de controle remoto, o Protocolo Valente-Pai, e pressionou um comando único. Um som mecânico de engrenagens destravando ecoou pelo saguão. As portas duplas de mogno, protegidas por um sistema de segurança que Salles acreditava ser inviolável, abriram-se lentamente, revelando os conselheiros já sentados, esperando a purga.
— A sessão está encerrada — disparou Salles, tentando recuperar uma autoridade que já não possuía. — Você não tem autoridade para estar aqui.
— A autoridade, Ricardo, é um conceito volátil quando a prova é irrefutável — Arthur respondeu, caminhando até o centro da mesa. Ele conectou o tablet ao projetor central. A tela brilhou, exibindo os metadados brutos da assinatura digital de Salles na ata. — O conselho sabe que a fusão foi aprovada por unanimidade. O que eles não sabem é que o software de criptografia da holding registrou uma intrusão externa no momento exato dessa assinatura.
Um murmúrio de choque percorreu a mesa. Arthur deslizou o dedo pela tela, expondo o rastro digital que levava diretamente aos servidores privados de V.M. Sotto. A prova era irrefutável. A diretoria entrou em pânico, o silêncio sendo substituído por acusações cruzadas e o som de cadeiras sendo arrastadas. A farsa de Salles estava desmoronando, mas, no ápice do caos, o telefone do conselho principal tocou.
O silêncio que se seguiu foi sepulcral. O presidente do conselho atendeu, ouviu por um instante e empalideceu, encarando Arthur com um misto de medo e ódio.
— Sotto sabe — o presidente sussurrou, a voz trêmula. — E ele não está vindo para negociar. Ele está vindo para fechar o prédio.
As luzes do andar piscaram e apagaram. Do lado de fora, o som de sirenes e o bloqueio total das saídas do complexo indicavam que o jogo havia mudado. A lei não era mais o campo de batalha; o cerco de Sotto havia começado.