Chapter 8
O ar no décimo andar da Holding Valente tornou-se rarefeito. As luzes de teto oscilaram, morrendo em um estalo seco, e foram substituídas pelo brilho avermelhado e estéril das luzes de emergência. O silêncio que se seguiu foi cortado pelo som metálico das travas magnéticas disparando em todo o prédio. Ricardo Salles, o CEO que até horas atrás ditava o destino de milhões, estava encolhido contra a mesa de mogno, o rosto desprovido da máscara de arrogância habitual. Ele tremia.
— Sotto trancou o prédio, Arthur. Ele não quer apenas a ata, ele quer que nós desapareçamos antes da auditoria — Salles sussurrou, a voz falhando. — Ele não vai deixar ninguém sair vivo.
Arthur Valente não se moveu. Ele mantinha os olhos fixos na tela de seu tablet, onde o código do Protocolo Valente-Pai corria em linhas verdes, ignorando o pânico do homem à sua frente. O bloqueio físico era a confissão final de V.M. Sotto; significava que o conselho superior, a sombra que manobrava as peças, perdera a paciência.
— Sotto não está aqui para salvar a empresa, Ricardo. Ele está aqui para queimar os arquivos — Arthur disse, a voz fria, desprovida de qualquer emoção que não fosse o cálculo estratégico. — Você é o peão que ele pretende sacrificar para cobrir a falsificação da ata. Se ficarmos aqui, seremos os bodes expiatórios perfeitos.
Arthur não esperou a resposta de Salles. Ele caminhou até a grade do duto de manutenção, a peça metálica rangendo sob a pressão de sua bota. Atrás deles, o som rítmico de botas táticas ecoava pelo corredor de mármore — uma contagem regressiva que não admitia erros.
— O Protocolo Valente-Pai não é apenas uma senha, Salles. É uma planta viva — sibilou Arthur, forçando o CEO a segui-lo para a escuridão dos dutos.
Eles se arrastavam pela penumbra, um ambiente esquecido que Arthur conhecia como a palma da mão. Enquanto avançavam, Arthur digitava comandos frenéticos, sabotando o sistema de vigilância que Sotto usava para rastreá-los. Ele não apenas fugia; ele transformava o prédio em uma armadilha. Ao chegarem ao entroncamento do servidor central, Arthur forçou as travas magnéticas de todo o andar superior a entrarem em modo de bloqueio total. O prédio gemeu sob a pressão digital, e as luzes do corredor onde a segurança avançava apagaram-se completamente.
Dentro da sala de servidores, o zumbido dos racks mascarava o caos lá fora. Arthur, com a calma de um cirurgião diante de um paciente moribundo, conectou seu terminal ao mainframe.
— Cada vez que Sotto tentou apagar um rastro, ele apenas criou uma redundância automática no meu servidor portuário — Arthur explicou, os dedos deslizando com precisão pelo teclado. — A falsificação da sua assinatura foi o erro de Sotto, não o seu. Use isso ou aceite a prisão.
Salles observava, paralisado, enquanto Arthur drenava os registros financeiros e enviava a prova da falsificação digital diretamente para o servidor do conselho superior. O sistema respondeu com um bip agudo. A notificação de fraude estava disparada; a auditoria, agora, não seria mais uma purga, mas um tribunal de execução contra Sotto.
Antes que Salles pudesse articular uma resposta, a porta blindada da sala de servidores foi forçada. O mecanismo hidráulico soltou um chiado de descompressão. Três homens de ternos impecáveis e postura militar entraram, liderados por um homem cujas feições eram tão gélidas quanto sua reputação: o representante direto do conselho superior.
Eles não estavam ali para ajudar Sotto, nem para proteger Salles. Eles estavam ali para silenciar a fonte. O representante caminhou até o centro da sala, seus olhos fixos em Arthur.
— O jogo acabou, Sr. Valente — disse o homem, a voz desprovida de qualquer ameaça física, mas carregada de uma autoridade que parecia dobrar o ar ao redor. — O conselho não tolera amadores brincando com o legado da família. Entregue os registros.
Arthur sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. Ele fechou o tablet, guardando-o no bolso interno do paletó. Ele sabia que o que estava no servidor era apenas uma fração do que ele guardava no escritório do porto. O iceberg financeiro da família Valente era muito maior do que o conselho sequer imaginava, e ele tinha acabado de acender o pavio.