Chapter 5
O ar no escritório portuário era denso, saturado pelo cheiro de maresia e óleo diesel — uma crueza que expunha a artificialidade da sede da holding. Arthur Valente observou a chave de latão, um objeto pesado e anacrônico, antes de inseri-la na fechadura do cofre embutido na parede de concreto. O estalo do mecanismo foi o único som na sala, seco e definitivo. Dentro, repousavam os registros contábeis de 1998. Não eram apenas números; eram a prova da arquitetura de fraude que sustentava o poder de Ricardo Salles e, por extensão, a sombra de V.M. Sotto.
Arthur passou os dedos pelo papel amarelado. Cada transferência offshore ali documentada era uma sentença. Ele não sentiu triunfo, apenas a frieza de quem finalmente encontrou a peça que faltava para desmantelar o tabuleiro.
Ao sair, o cais estava deserto, exceto pela presença de três homens parados junto ao seu carro. O líder, um segurança de ombros largos, bloqueou seu caminho. Ele não parecia um funcionário; parecia um executor.
— O jogo acabou, Valente — disse o homem, a voz desprovida de qualquer hesitação. — Entregue o que você tirou do cofre. Salles não vai pedir duas vezes.
Arthur parou a poucos metros. Ele não recuou, nem buscou uma arma. Em vez disso, desbloqueou o celular, exibindo a interface do Protocolo Valente-Pai. A tela brilhava com o fluxo de dados em tempo real da holding.
— Roberto, não é? — Arthur perguntou, a voz calma, quase impessoal. — Sua filha estuda no Colégio Santa Cecília. A mensalidade vence amanhã. Salles te prometeu um bônus, mas esqueceu de mencionar que, se você me tocar, o protocolo de segurança da holding bloqueia automaticamente todas as contas vinculadas ao seu CPF. Você não será apenas demitido; será apagado do sistema bancário antes do amanhecer.
O segurança vacilou. A autoridade de Salles, antes absoluta, desintegrou-se diante da precisão da ameaça. O homem olhou para o celular de Arthur, depois para os companheiros, e deu um passo atrás, abrindo caminho. Arthur passou por eles sem olhar para trás; o peso da chave no bolso era o seu verdadeiro escudo.
Na sede da holding, a atmosfera era de velório. Arthur entrou na sala de reuniões sem bater. Ricardo Salles estava na cabeceira, a gravata frouxa, as mãos trêmulas sobre papéis inúteis. Os conselheiros, antes submissos, viraram-se em uníssono.
— A auditoria não é mais uma opção, Ricardo. É uma necessidade — Arthur declarou, deslizando uma cópia dos registros sobre a mesa. — O conselho agora sabe quem você serve e como você chegou aqui.
O silêncio na sala foi absoluto. Salles tentou articular uma defesa, mas o Sr. Mendes, decano do conselho, levantou a mão, cortando-o. A manobra de Salles, desenhada para consolidar poder, tornara-se a armadilha que o prendia.
Mais tarde, isolado em seu escritório, Salles discou para Sotto. O telefone atendeu no primeiro toque.
— O garoto tem a chave, Sotto. Ele está bloqueando o acesso ao cofre principal — Salles sibilou, a voz falhando. — Se a auditoria entrar amanhã, meu nome não será o único a cair.
Do outro lado, a voz de V.M. Sotto era cirúrgica.
— Você foi pago para manter o legado dos Valente enterrado, Ricardo. Se o túmulo foi aberto, o problema é seu. Limpe a casa antes do sol nascer, ou você será o primeiro a ser varrido.
O tom de discagem soou como uma sentença. Salles arremessou o aparelho contra a parede. A auditoria estava marcada para o amanhecer. Arthur, observando a movimentação da holding pelas câmeras de segurança, sabia que o xeque-mate estava próximo. A auditoria era o campo de batalha, e ele detinha o mapa das minas.