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Chapter 10: A Queda da Máscara

Lucas tenta expor a corrupção de Tiago entregando o caderno de chantagens do pai a uma jornalista, mas descobre que a polícia local está comprometida, deixando-o isolado e sem proteção institucional antes da demolição final.

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A Queda da Máscara

A chuva de São Paulo não lavava o asfalto; ela transformava a poeira das vielas em uma lama densa que subia pelas pernas de Lucas, colando-se à pele como o peso daquela dívida que ele tentara ignorar por anos. O segundo caderno, escondido sob a jaqueta, pulsava contra seu peito — um registro de podridão que ele nunca quis herdar, mas que agora era sua única arma contra Tiago.

O som metálico de uma britadeira, operando na madrugada, ecoava como um batimento cardíaco acelerado. Era o anúncio da demolição iminente do legado de Dona Zezé. Lucas parou atrás de uma pilha de entulho, o fôlego curto. Ao dobrar a esquina da Rua das Flores, o feixe de uma lanterna cortou o breu. Ele recuou, mas não foi rápido o suficiente. Uma viatura da polícia bloqueava a saída principal. Os policiais conversavam com um dos capangas de Tiago, trocando risadas enquanto o rádio da viatura emitia um chiado estático. O cerco não era para manter a ordem; era para garantir que ninguém saísse antes que as máquinas terminassem o serviço.

Lucas desviou, atravessando um terreno baldio cercado por tapumes. Ele precisava chegar ao café na periferia do centro, onde a jornalista Helena o esperava. Se os dados descentralizados no pendrive e as evidências de chantagem no caderno não fossem publicados antes do amanhecer, a rede de proteção que seu pai construíra — e que Tiago corrompera — seria apagada da história.

O 'Ponto do Centro' cheirava a mofo e café queimado. Helena estava sentada em uma mesa de fórmica, os olhos cravados no relógio de parede. Quando Lucas se aproximou, o rosto dela não revelou alívio, apenas uma urgência gélida. Ele jogou o caderno sobre a mesa. As páginas de capa gasta revelavam uma rede de alianças forçadas e pagamentos que ligavam o nome de Tiago a figuras políticas de alto escalão.

— Isso não é apenas uma lista de dívidas, Helena. É o mapa de como eles estão drenando o fundo de reserva do bairro — disse Lucas, a voz despojada da polidez corporativa que ele costumava usar.

Helena folheou o material, a expressão endurecendo. — Lucas, isso aqui é explosivo, mas a autenticação é frágil sem o caderno principal que roubaram de você. Sem ele, Tiago pode alegar que isso é uma montagem de um herdeiro desesperado.

— O caderno principal foi o que ele levou, mas o que está aqui é o que ele não pode apagar — retrucou Lucas, sentindo o estômago revirar ao ver os nomes de vizinhos que ele ignorara durante anos, agora expostos como peões no tabuleiro de Tiago. Ele aceitou, naquele momento, que o legado de seu pai estava manchado para sempre, mas que a verdade era o único pagamento possível para sua própria redenção.

Ao sair do café, a última esperança de Lucas era a proteção institucional. Ele encontrou um telefone público, um monólito enferrujado, e discou o número da delegacia central. O sargento Mendes atendeu no terceiro toque.

— Sargento, aqui é Lucas. Tenho provas documentais de despejo ilegal e corrupção no setor norte. Preciso de uma equipe agora. A demolição da casa de Dona Zezé está marcada para o amanhecer.

Houve um silêncio prolongado do outro lado, apenas o som de um rádio de fundo. Então, uma risada seca ecoou.

— O setor norte? Você deve estar enganado, rapaz. Aquele terreno já foi liberado judicialmente. E o nome do Tiago? Ele é um parceiro da prefeitura. Sugiro que vá para casa e pare de causar problemas.

A ligação caiu. Lucas ficou parado sob a marquise, o silêncio da rua sendo preenchido pelo som rítmico e predatório das britadeiras que, lá longe, recomeçavam o trabalho. Ele estava isolado. A polícia não era um escudo; era o braço executor de Tiago. Sem proteção, sem a lei, e com o amanhecer a poucos minutos, ele percebeu que a única barreira que restava entre as casas e as máquinas eram os próprios moradores. Ele não era mais o herdeiro distante; era a última peça de uma resistência que ele mesmo ajudara a quebrar.

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