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Chapter 9: O Fundo em Risco

Lucas descobre o roubo do caderno principal e, com a ajuda de Dona Zezé, acessa um segundo volume contendo registros de chantagem. Ele decide descentralizar o fundo de reserva entre jovens moradores para impedir que Tiago o esvazie. O capítulo termina com Lucas em fuga, após a invasão de seu escritório e o cerco policial ao bairro.

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O Fundo em Risco

A fechadura do escritório não fora apenas forçada; fora cirurgicamente destruída, o metal retorcido em um grito silencioso de invasão. Lucas parou no umbral, o ar parado carregando o cheiro de papel seco e poeira de gesso — o odor de uma tumba violada. Onde antes repousava a ordem metódica de sua vida, agora havia o caos: gavetas arrancadas, o piso coberto por recibos e planilhas que, até uma hora atrás, eram a única prova das lealdades transfronteiriças que mantinham o bairro de pé. Ele caminhou até a mesa central. O retângulo de poeira mais clara no tampo de madeira era o vazio mais ruidoso que já vira. O caderno principal de remessas — a prova da drenagem sistemática promovida por Tiago — desaparecera. Sobre a mesa, um broche de metal com o logotipo da construtora de Tiago brilhava sob a lâmpada fluorescente, uma assinatura cínica de quem não teme mais as sombras.

Na cozinha de Dona Zezé, o café forte não conseguia mascarar o cheiro de desinfetante e o medo que pairava como um gás denso. Lucas não precisou falar. A pasta vazia em suas mãos era a confissão de sua derrota.

— Você chegou tarde, Lucas — disse Zezé, sem desviar o olhar do pano de prato que torcia com uma força que faria os ossos estalarem. — Seu pai sempre achou que podia controlar o fogo enquanto queimava a casa. Você é igual. Acha que um terno bem cortado e um sobrenome de quem partiu resolvem a miséria de quem ficou.

— O caderno foi levado, Zezé. O Tiago está apagando as evidências de que o sistema que ele usa foi construído pelo meu pai. Se ele demolir sua casa ao amanhecer, ele apaga a última âncora da rede.

Zezé parou. O silêncio na cozinha era pontuado apenas pelo tique-taque de um relógio que parecia marcar uma contagem regressiva para o fim do mundo. Ela caminhou até o fogão, moveu um tijolo falso na base de alvenaria e retirou um volume menor, encapado em couro gasto. Não era o ledger principal, mas era denso, repleto de anotações laterais e nomes riscados em vermelho.

— Seu pai não era apenas um arquiteto de finanças, ele era um colecionador de segredos — ela murmurou, entregando o volume. — Aqui estão as chantagens, as alianças forçadas. Se você quer salvar este lugar, pare de tentar recuperar o que foi roubado e comece a usar o que eles não sabem que você tem.

Lucas abriu o caderno. Ali, entre rabiscos e códigos, estava a prova de que seu pai não apenas operava o sistema, mas o mantinha como uma rede de proteção viva, agora corrompida. Ele olhou para os quatro jovens que Dona Zezé havia convocado no porão da pensão — rostos tensos, iluminados pela luz fraca de uma lâmpada pendente. Eram os filhos daqueles que dependiam das remessas para sobreviver.

— Se o Tiago tem o caderno principal, ele tem os nomes e as contas — disse Lucas, a voz cortante pela urgência. — Ele quer a estrutura de confiança para esvaziá-la. Nós vamos descentralizar o fundo. Vamos pulverizar os dados entre vocês. Se os registros estiverem em toda parte, eles não estarão em lugar nenhum para o algoritmo dele.

Eles trabalharam em silêncio febril. Lucas sentia o peso da herança do pai em cada linha de código que transferia, uma responsabilidade que finalmente não era sobre dívida, mas sobre sobrevivência. Enquanto os dados eram dispersos, o sentimento de estranhamento que trouxera de fora começou a se dissolver, substituído por uma conexão visceral com o chão que ele pisava.

O som de passos pesados no corredor do porão interrompeu a calmaria. Não era um vizinho. O escritório de apoio, onde Lucas mantinha o servidor principal, estava sendo invadido simultaneamente. Ele conseguiu salvar os dados no drive de emergência, mas a tela do celular iluminou uma mensagem de alerta: a polícia local, paga por Tiago, estava cercando o perímetro.

Lucas correu para a saída dos fundos, o drive apertado contra o peito. Ele não era mais o herdeiro cosmopolita que buscava respostas; ele era o guardião de uma rede que agora dependia dele para não ser apagada. Enquanto saltava sobre o muro baixo do beco, ouvindo os gritos dos seguranças de Tiago atrás dele, Lucas percebeu com clareza brutal: a lei não o protegeria, e sua vida anterior não existia mais. O amanhecer trazia a demolição, mas ele tinha a arma que faria a cidade inteira olhar para o que Tiago tentava esconder.

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