A Máscara de Juliana
O escritório da presidência, outrora um santuário de autoridade absoluta, agora cheirava a café frio e desespero contido. Otávio Albuquerque golpeou a mesa de mogno com a palma da mão, os olhos injetados de raiva focados no genro. Sobre o vidro temperado, um documento de liquidez forjado esperava a assinatura que selaria a sobrevivência financeira da construtora até o meio-dia de amanhã.
— Assine, Rafael. É uma formalidade de emergência para o conselho — a voz de Otávio era uma ordem disfarçada de súplica.
Rafael Mendes permaneceu imóvel, observando o reflexo das luzes de LED no tampo da mesa. Ele não olhou para o documento. Sabia que aquele papel era a última tentativa de Otávio de mascarar o rombo causado pela sabotagem geotécnica, uma manobra desesperada para inflar ativos antes da auditoria final.
— Não — respondeu Rafael, sua voz desprovida de hesitação. — Esse documento não é uma formalidade, Otávio. É um crime contra os acionistas. Se eu assinar, estou aceitando a responsabilidade pela fraude que você permitiu que enterrassem sob o projeto da orla.
Otávio se levantou, a cadeira de couro recuando com um guincho metálico. Ele tentou a intimidação clássica, a postura de predador que sempre subjugara Rafael. — Você esqueceu quem te deu um sobrenome? Quem te tirou da insignificância? Sem a família Albuquerque, você não é nada.
— O problema, Otávio, é que você ainda acredita que o sobrenome Albuquerque é um ativo. Ele é um passivo. E sob minha gestão, passivos são cortados.
Rafael não esperou a resposta. Ele se levantou, deixando o sogro estático, e caminhou em direção ao seu novo escritório — o antigo santuário de Bruno. Mal tinha se sentado quando a porta se abriu sem aviso. Juliana entrou, trazendo consigo o perfume que outrora representava conforto e, agora, apenas uma intrusão indesejada. Ela fechou a porta com suavidade excessiva, aproximando-se da mesa com um movimento ensaiado.
— Rafael, você está exagerando — disse ela, pousando uma mão sobre os documentos que ele revisava. — Meu pai está sob uma pressão insuportável. Se você tem o arquivo que prova a sabotagem, entregue a ele. Podemos resolver isso como família.
Rafael sentiu o toque dela, mas a sensação era nula, como se a pele de Juliana fosse feita de plástico. O prazo das 14h de amanhã para a comprovação de liquidez martelava em sua mente.
— Família é um conceito que vocês só evocam quando o saldo bancário está em xeque, Juliana — respondeu ele, sem alterar o tom. — O dossiê que você quer não é um pedido de desculpas. É a única coisa que impede o Ministério Público de confiscar tudo o que vocês possuem. Você não está aqui por nós. Você está aqui para ver se consegue roubar a chave que mantém seu pai fora da cadeia.
Juliana recuou, a máscara de esposa compreensiva rachando para revelar uma frieza calculada. Ela não negou. Apenas o encarou com um desprezo que, finalmente, era mútuo. Rafael voltou-se para o monitor, ignorando-a completamente enquanto ela saía. A ruptura era definitiva; não havia mais espaço para o teatro conjugal.
Minutos depois, a porta se abriu novamente, mas desta vez era o Dr. Marcelo Lima. Ele colocou sobre a mesa um envelope lacrado.
— Grupo Vanguarda. Eles plantaram os dados falsos há cinco anos, exatamente quando Otávio decidiu expandir o projeto da orla. Os Albuquerque serviram apenas para desbravar o terreno e carregar o prejuízo inicial. O alvo real nunca fora o lote à beira-mar. Era o megaprojeto de saúde pública que o governo federal abrirá em seguida.
Rafael não se moveu. Seus dedos tamborilaram no braço da cadeira. A peça se encaixava: os Albuquerque não eram os vilões, eram as buchas de canhão descartáveis de um jogo nacional.
— Se eles pretendem descartar os Albuquerque, eu vou garantir que eles fiquem com os destroços — murmurou Rafael.
Na manhã seguinte, a sala de reuniões estava carregada de tensão. Otávio, ignorando a presença dos conselheiros, tentou uma última cartada.
— Você está demitido, Rafael. Por justa causa. Insolubilidade e quebra de dever fiduciário. A segurança vai escoltá-lo para fora do prédio agora mesmo.
Rafael permaneceu sentado na cabeceira da mesa, o lugar que, até aquela manhã, pertencia a Otávio. Ele não se levantou. Dr. Marcelo, sentado ao seu lado, abriu a pasta de couro, revelando a documentação acionária que Otávio temia.
— A demissão é uma prerrogativa do conselho, Otávio — Rafael respondeu, sua voz calma cortando o ar. — Mas, para o conselho votar, eles precisariam de quórum acionário. E, como você sabe, a liquidez da família Albuquerque evaporou. No entanto, através de uma série de aquisições discretas que você ignorou enquanto estava ocupado me humilhando, eu agora detenho 51% das ações operacionais.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Otávio empalideceu, o chão desaparecendo sob seus pés. Rafael olhou para os conselheiros, depois para o sogro, e sorriu pela primeira vez em anos. A era dos Albuquerque havia terminado; a dele acabara de começar.