Sombras na Licitação
O ar-condicionado central da sede da Albuquerque Construtora, em Florianópolis, mantinha o ambiente em um frio cirúrgico. Rafael Mendes, agora instalado na sala que antes pertencia a Bruno, observava o reflexo da cidade no vidro temperado. O silêncio era o seu novo ativo mais valioso.
A porta se abriu sem aviso. Otávio Albuquerque entrou, o rosto lívido, segurando uma pasta de couro que tremia levemente em suas mãos. Ele não se sentou; jogou o documento sobre o tampo de jacarandá com uma força desnecessária.
— Assine, Rafael. É a retificação emergencial para a comissão. Se não protocolarmos até as 14h, o leilão será cancelado e perderemos o sinal de entrada. Você não quer que a falência da nossa divisão imobiliária seja o seu primeiro ato como Diretor de Operações, quer?
Rafael não olhou para o documento. Seus olhos estavam fixos na tela, onde o relatório geotécnico — o original, recuperado por Marcelo — exibia os metadados de uma sabotagem datada de cinco anos atrás. O nome do rival nacional que ele identificara brilhava como uma sentença de morte para os Albuquerque.
— O documento está incompleto, Otávio — a voz de Rafael era fria, desprovida da submissão que o sogro acostumara-se a explorar. — Ele ignora a anomalia estrutural da página 42. Se eu assinar isso, não estarei apenas validando um erro; estarei assinando uma confissão de fraude perante o Ministério Público. O veto está mantido.
Otávio inclinou-se sobre a mesa, o rosto vermelho de fúria contida. — Você é um intruso. Um funcionário que teve sorte.
— Eu sou o único que sabe o que está enterrado sob o terreno da orla — retrucou Rafael, levantando-se devagar. — E o único que pode impedir que a sua ruína seja pública. Saia. Tenho uma reunião com o jurídico.
Horas depois, no escritório de Marcelo Lima, o ambiente cheirava a café forte e papel envelhecido. Marcelo percorria os metadados do relatório original.
— Não é um erro de cálculo, Rafael — Marcelo disse, a voz baixa. — Alguém inseriu essas coordenadas de solo instável de propósito. O sistema foi adulterado por um script de criptografia de nível militar. Quem fez isso queria garantir que o projeto fosse inviabilizado desde o nascimento.
Rafael sentiu o peso da revelação. A peça não se encaixava na ganância amadora de Otávio. O patriarca era um tubarão de aquário, não um estrategista digital. Eles eram peões em um jogo muito maior. O rastro apontava para uma licitação hospitalar nacional que ocorreria após o leilão da orla. A família Albuquerque era apenas o bode expiatório, a estrutura descartável que seria destruída para que o verdadeiro rival assumisse o controle do mercado regional sem concorrência.
De volta à sede, Juliana entrou, o vestido de gala ainda exalando o perfume caro do evento da noite anterior. Ela contornou a mesa, inclinando-se sobre o ombro dele, o decote roçando seu braço.
— Rafael... — a voz era melosa. — Eu sei que você está bravo. Mas o papai está destruído. Me conte o que você descobriu. Eu posso ajudar.
Rafael girou a cadeira devagar. Seus olhos encontraram os dela sem calor. — Ajudar? Como quando seu pai me chamava de peso morto na frente dos investidores e você sorria em silêncio? Juliana, o tempo das máscaras acabou.
Ela recuou, o rosto pálido. — Você está mudado. É assustador.
— Eu estou apenas vendo o tabuleiro com clareza pela primeira vez — ele respondeu. Ela saiu frustrada, a humilhação de ser ignorada brilhando em seus olhos.
À noite, no jantar de gala, um homem de terno impecável aproximou-se de Rafael.
— O relatório da página 42 foi uma lição, Rafael — o estranho murmurou, segurando uma taça de cristal. — Mas você está olhando para o lado errado. A licitação da orla é apenas o treino. O verdadeiro jogo acontece na licitação hospitalar nacional. Se não retirar o dossiê, sua vida pessoal será o próximo item a ser leiloado.
Rafael não recuou. Ele entendeu, finalmente, que a família era um alvo, e ele, agora, estava na linha de frente de uma guerra nacional.