O Preço da Honra
O ar no Nível 36 não era apenas rarefeito; era uma prensa hidráulica de mana. Kaelen mal se arrastou para fora do elevador externo quando a pressão espiritual o atingiu como um martelo, forçando seus joelhos contra o piso de obsidiana. Seu núcleo, uma rede de fissuras instáveis desde o duelo na Arena, vibrou em sessenta e quatro unidades de dor aguda. Seis dias. A auditoria dos Guardiões chegaria em cento e quarenta e quatro horas, e ele precisava converter aquela densidade em estabilidade antes que o sistema o descartasse como lixo industrial.
Ele sentou-se, ignorando o olhar de desprezo dos passantes. A mana do andar, rica e bruta, invadiu seus poros. Sessenta e oito. Setenta e um. O ganho era mensurável, mas a técnica de compressão que ele forjara — sua única arma contra a mediocridade — começou a alargar as rachaduras em seu núcleo. Uma queimadura espiritual subiu por sua coluna, fazendo as cicatrizes de sua linhagem, os Voss, brilharem sob a pele como brasas de um incêndio esquecido.
— Controle — ele sibilou, ajustando o selo interno. A dor recuou, mas o ganho estagnou em sessenta e nove. Uma cicatriz nova pulsava em seu peito, um farol para qualquer auditor atento.
— Você trouxe a Torre inteira para cima de nós, Kaelen — a voz de Lívia cortou o ar antes que ela se materializasse no corredor. O uniforme impecável dela contrastava com a cicatriz fina no pulso, o selo da aliança que os prendia. — Os Administradores já rastreiam a anomalia. Cento e doze unidades de energia em uma semana? Eles vão abrir sua câmara de drenagem antes do amanhecer.
Kaelen levantou-se, o núcleo protestando a cada movimento.
— Então me proteja. Ou o cristal de memória original que você tanto deseja vai parar nas mãos dos Guardiões junto com a prova da corrupção na drenagem.
Lívia estreitou os olhos, a mão pairando sobre o selo de sua própria energia.
— Você acha que pode barganhar aqui em cima?
— Eu sei que posso. Você tem a cópia criptografada. Eu tenho a chave. Vamos negociar antes que Vane chegue.
O Salão de Observação Privado era um antro de sombras. Mestre Vane aguardava, dedos tamborilando sobre uma mesa de couro rachado. O ar ali pesava, carregado pela ganância de quem vendia segredos como se fossem pão.
— Meninos — Vane riu, um som seco. — Estamos todos vendendo o mesmo produto: silêncio. Tenho o artefato de blindagem. Preço: a segunda metade da técnica de compressão.
Kaelen sentiu o selo de contenção vibrar. Entregar mais era suicídio, mas ser rastreado era o fim. Ele entregou um cristal secundário, retendo o núcleo da técnica. Vane absorveu os dados com avidez, enquanto Lívia recebia a cópia das evidências.
— Vocês estão brincando com fogo — murmurou Vane, ativando o artefato. Uma aura fria envolveu Kaelen, amortecendo sua assinatura. O núcleo estabilizou em setenta e duas unidades. Ganho real, custo altíssimo.
Horas depois, Kaelen invadiu o escritório dos Administradores. Sem convite, sem hesitação. O Administrador-chefe, um homem de rosto marcado por selos de autoridade, ergueu o olhar da mesa de obsidiana.
— Kaelen Voss. Você não foi convidado.
Kaelen depositou o cristal original sobre a mesa. A projeção holográfica preencheu a sala: as câmaras de drenagem, os desvios de essência, a destruição calculada de sua família.
— Vocês roubaram gerações. Incluindo a minha.
O chefe da administração inclinou-se, um sorriso frio surgindo em seus lábios. Ele deslizou um selo dourado sobre a mesa.
— Justiça é cara, Voss. Mas podemos oferecer algo melhor. A restauração completa da Linhagem Voss. Nome limpo, dívidas perdoadas, acesso ao Nível 50. Tudo registrado. Em troca… seu silêncio. Entregue o cristal e esqueça que isso existiu.
O peito de Kaelen apertou. A linhagem. O nome que seu pai carregara com orgulho. A tentação era uma âncora puxando-o para o fundo. Segurança. Dignidade. O fim da luta.
Ele olhou para a cicatriz em seu peito, o preço de cada degrau que subira.
— Não — ele disse, a voz firme. — Vocês destruíram minha família uma vez. Não vou deixar que comprem meu silêncio com as cinzas deles. Em seis dias, a Torre vai saber a verdade.
Ele saiu sob o silêncio mortal dos administradores. Seu comunicador vibrou. Uma mensagem de Vane: “Última peça do sistema pronta. O sacrifício foi feito. Agora não há volta.”
Kaelen fechou os olhos. A guerra estava declarada.