Corrida Contra a Torre
O elevador de carga do Nível 35 estava morto. A placa de comando piscava um vermelho opaco, o selo dos Guardiões bloqueando qualquer subida. Kaelen bateu o punho contra o metal frio, sentindo a vibração subir pelo braço como um aviso. Seis dias. A auditoria dos Guardiões chegaria em seis dias e seu núcleo espiritual, ainda em frangalhos após o duelo contra Silas, oscilava entre 112 e 89 unidades de energia. A conta de essência estava zerada. Sem o mana denso do Nível 36, o colapso seria público e definitivo.
Ele não esperaria. Forçou a janela de serviço com os dedos calejados. O painel cedeu com um estalo seco. O ar rarefeito do exterior invadiu o corredor, carregado de partículas cortantes. Kaelen ancorou o pouco de energia estabilizada por Vane nas palmas das mãos e saltou para fora.
O vento não soprava — cortava. Lâminas de éter bruto rasgavam a pele enquanto ele se agarrava à primeira saliência da estrutura externa da Torre de Aethelgard. Abaixo, as luzes do Nível 35 tremiam como dívidas impagáveis. Acima, o Nível 36 brilhava, prometendo densidade suficiente para forçar a estabilização antes da inspeção. Um passo em falso e o fosso o engoliria.
Cada metro era uma luta. As placas externas pulsavam como veias vivas, sugando energia residual dos andares inferiores. Kaelen sentiu a sucção violenta tentar arrancar o que restava de seu núcleo. O artefato proibido no pulso aqueceu, o selo rachando. Ele fechou os olhos, comprimiu a mana até o limite da técnica incompleta que entregara a Vane e tornou seu fluxo quase invisível. A drenagem passou por ele como se fosse apenas uma sombra.
— Maldita máquina de colheita — murmurou, o peito ardendo. A Torre não era uma cidade; era um monstro industrial que bebia o esforço dos de baixo para engordar os de cima. E ele escalava pela garganta dela.
O suor escorria misturado ao sangue das unhas. Quando a sucção aumentou, Kaelen improvisou: liberou uma explosão controlada de mana comprimida, criando um vácuo que o impulsionou três metros para cima. O ganho foi visível — o medidor interno subiu para 124 antes de cair. O custo foi imediato: o selo do artefato rachou mais fundo, enviando uma onda de dor que quase o fez soltar.
Ele continuou. Mão após mão. O orgulho da linhagem Voss, reduzido a um homem pendurado na casca de uma torre que o via como resíduo.
A plataforma de manutenção do Nível 36 surgiu como um milagre enferrujado. Kaelen rolou sobre as grades, ofegante. Lívia saiu das sombras, manto branco agitado pelo vento, olhos frios.
— Você não devia estar aqui fora. Os sensores piscam vermelho. Entregue o cristal original. Agora.
Ele se ergueu, sentindo o peso do cristal de memória na bolsa. A única prova real da drenagem sistemática. Sem ele, Lívia não tinha motivo para manter a aliança.
— Proteção primeiro — disse, voz rouca. — Eu cumpri com Vane. Cumpra sua parte.
Lívia deu um passo. A plataforma rangeu. — Não confio em cópias. O original ou nada.
Kaelen sorriu sem humor. Tirou o cristal, ativou a criptografia parcial e estendeu uma versão incompleta. — Isto é o que você ganha agora. A chave fica comigo até eu estar seguro no Nível 36. Depois, você me protege da auditoria. Caso contrário, tudo vaza.
Lívia estreitou os olhos, o vento uivando entre eles. Ela pegou o cristal falso. — Se você falhar na auditoria, eu mesma entrego você aos Guardiões. E sua família paga o preço.
— Então garanta que eu não falhe.
Ela desapareceu. Kaelen virou-se para a última borda, mas a estrutura cedeu. Um painel inteiro despencou. Kaelen ficou pendurado por um fio de mana, braços queimando, núcleo caindo para 76 unidades.
— Kaelen Voss. — A voz metálica cortou o vendaval. Um Administrador flutuava a três metros, selo dourado brilhando. — Impressionante escalada. Mas inútil se cair agora.
O Administrador estendeu a mão. — Sua linhagem pode ser restaurada. Nome limpo. Dívida zerada. Acesso permanente ao Nível 36. Basta entregar o cristal. Pense na sua família.
A tentação queimou mais forte que o vento. O nome Voss. A mãe esperando no andar térreo. Por um instante, ele viu a vida sem luta. Mas viu também a máquina. Viu as placas sugando milhares de núcleos como o dele.
— Não. — Kaelen usou o impulso para se lançar, quebrando o fio de mana num estalo final. Seus pés tocaram o piso interno do Nível 36 no exato momento em que o painel atrás dele desabava.
Ele caiu de joelhos, núcleo em frangalhos, medidor piscando em 64. Mas estava dentro. O ar denso começou a preencher as rachaduras de seu espírito. Visível. Mensurável. Ganho pago com sangue. Atrás dele, o Administrador observava em silêncio. A guerra contra a Academia acabara de começar.