O Teto de Vidro
O leito de pedra da enfermaria do Nível 30 era frio, mas a realidade que aguardava Kaelen era gélida. Seu núcleo espiritual latejava, uma rede de fissuras que ameaçava colapsar a cada pulsação de mana. Conta de essência: zero. Prazo para a auditoria dos Guardiões: seis dias. Seis dias até que a instabilidade de seu núcleo fosse exposta, transformando-o em um caso perdido para a administração da Academia.
Lívia estava sentada na beira do leito, a postura impecável em contraste com o caos interno de Kaelen. Não havia a zombaria habitual, apenas um cálculo gélido.
— Você venceu Silas, mas o Fogo de Escória deixou cicatrizes que nem os curandeiros conseguem ocultar por muito tempo — disse ela, a voz baixa. — Os Guardiões não estão apenas auditando dívidas. Eles estão caçando anomalias. Se você entrar naquela sala de inspeção como está, será desintegrado antes de completar a primeira frase.
Kaelen tentou se erguer, a dor subindo pela coluna como uma lâmina quente. — Veio terminar o serviço, Lívia? Ou veio negociar o que eu sei sobre a câmara de drenagem?
— Proteção — ela respondeu, os olhos verdes brilhando com uma urgência contida. — Três meses de cobertura contra os relatórios de conduta. Acesso a recursos do meu clã para estabilizar esse núcleo. Em troca, quero o cristal de memória. O original. Tudo o que você gravou lá embaixo.
Kaelen sentiu o peso do cristal contra a coxa. Era seu seguro de vida, a única coisa que impedia a linhagem de Lívia de apagá-lo da existência. Ele não podia entregar tudo, mas a pressão da auditoria era um aperto constante em seu pescoço.
Ao sair da enfermaria, o ar do Nível 30 parecia mais pesado, carregado de ozônio. No mercado de trocas, o painel holográfico exibia uma inflação brutal: trezentas moedas de essência por um estabilizador básico. O colapso da rede de energia, que ele mesmo iniciara, agora tornava cada recurso um artigo de luxo.
Mestre Vane surgiu das sombras, a mão repousando no cabo de sua adaga. — Precisa de cura, garoto? A auditoria está próxima. Se os Guardiões te encontrarem assim, serei obrigado a entregar você como o culpado pelo colapso da rede.
— O segredo da compressão de mana, Vane. É isso que você quer — Kaelen sibilou, ignorando a pontada lancinante em seu dantian. Ele não podia ser entregue. Rabiscou um fragmento da técnica em um pergaminho térmico, omitindo deliberadamente a rota de reversão que impedia a autodestruição do núcleo. Ao entregar o papel, a mão de Vane tremeu. O mestre injetou o fluxo no estabilizador, e Kaelen, sem esperar, tomou o frasco, sentindo a energia bruta aliviar parcialmente a fratura em seu núcleo.
Mas a trégua durou pouco. Nos corredores, o protocolo de varredura dos Guardiões ecoava como um sino fúnebre. Uma barreira de cintilação azulada bloqueou sua passagem. Kaelen sentiu a pressão da rede vibrando contra seus próprios artefatos. Seus passos vacilaram. Ele precisava de uma distração, um ruído na rede que mascarasse sua assinatura instável. Sem hesitar, ele canalizou o resto de sua energia no duto de ventilação, sobrecarregando o circuito local. A rede estalou, as luzes da torre oscilaram, e os Guardiões foram forçados a recuar para recalibrar os sensores.
Kaelen não parou. Ele subiu as escadas de emergência até a passarela externa do Nível 35, onde o vento cortante o esperava. Lívia estava lá, observando o abismo da torre.
— O cristal — ela exigiu, sem se virar.
— O acesso ao Nível 36 — Kaelen retrucou, agarrando a grade metálica que gemia sob a instabilidade sistêmica. — Proteção não basta. Preciso de altura. Preciso de energia mais densa para reconstruir meu núcleo antes da auditoria.
Lívia virou-se, o rosto pálido sob a luz bruxuleante dos painéis de energia. A passarela rangeu. Um parafuso soltou-se e caiu no vazio. Ela viu o perigo, viu a determinação nos olhos dele.
— Se cairmos, a linhagem cai comigo — ela murmurou, a voz carregada de um respeito relutante. — O teto de vidro é apenas uma barreira de energia, Kaelen. Se você souber como comprimir a mana para atravessá-la, o próximo andar é seu.
Kaelen olhou para cima. O Nível 36 estava a poucos metros, um santuário de densidade energética que poderia salvá-lo ou matá-lo. A aliança estava selada. Ele tinha a proteção, mas o custo seria a sua própria vida se falhasse em romper a barreira. A estrutura externa da torre era instável. Um passo em falso e ele cairia para a morte. O próximo andar estava a poucos metros.