Julgamento por Desafio
O ar na Câmara de Inquisição dos Guardiões tinha o gosto metálico de ozônio e desespero. Kaelen sentia a barreira de contenção da sala comprimindo seu peito, um lembrete físico de que, ali, sua margem de manobra era zero. À sua frente, o Alto Inquisidor Valerius não precisava de palavras; seu silêncio era uma arma que pesava mais que qualquer decreto de expulsão.
— A rede energética da Torre oscilou trinta por cento durante seu turno de manutenção, Kaelen — Valerius disse, observando um holograma trêmulo da rede de drenagem. — Estudantes de baixo nível não deveriam ter acesso a algoritmos de estabilização de núcleo. Como explica a anomalia?
Kaelen manteve a postura, embora o suor frio escorresse pela nuca. A isenção de dívida que arrancara da Academia era um escudo de vidro: frágil e transparente. Se admitisse a sabotagem, seria executado. Se negasse, a varredura mental revelaria o fragmento da técnica banida em seu núcleo.
— A rede estava em colapso devido à sobrecarga nos níveis superiores, Inquisidor — Kaelen respondeu, a voz controlada. — Eu não criei a anomalia. Eu a contive. O que o senhor vê como falha é o sistema se ajustando a uma ineficiência estrutural que a própria Academia ignora.
Valerius estreitou os olhos. — Audácia não substitui essência. Sua conta está zerada, sua licença de manutenção revogada. Até a auditoria de seis dias, você é um erro no sistema.
O confisco foi imediato. O terminal de pulso de Kaelen brilhou em carmesim, drenando cada fragmento de essência que ele acumulara. Ele saiu da câmara sentindo-se vazio, mas o descanso foi breve. Na saída, o Inquisidor Silas o aguardava com um sorriso predatório.
— Desafio de cultivo. Arena de Gravidade. Agora — Silas decretou, bloqueando o corredor.
Na Arena, a poeira metálica vibrava com a frequência da exaustão de Kaelen. Silas não perdeu tempo, lançando técnicas de supressão desenhadas para forçar o núcleo de Kaelen ao colapso. Lívia observava das arquibancadas, uma estátua de mármore. Ela sabia que Kaelen carregava o cristal com as provas da drenagem central. Silas era o bisturi que ela usava para extrair sua dignidade antes da auditoria.
Senti o selo de contenção de Silas morder minha vitalidade. O Fogo de Escória pulsava em minhas veias. Eu precisava de uma saída. Em um movimento desesperado, canalizei a energia da drenagem, não para resistir, mas para sobrecarregar o selo de Silas com a sujeira que ele tentava me impor. O estouro foi ensurdecedor. A arena tremeu, e Silas recuou, seu selo estilhaçado pela carga impura.
Eu venci, mas o custo foi total. Caí sobre os joelhos, o núcleo espiritual em frangalhos, a visão escurecendo enquanto o silêncio da arena se tornava absoluto. A conta de essência estava zerada. Eu estava vulnerável, sem recursos e sem margem para o próximo dia.
Quando acordei na enfermaria, o cheiro de ozônio era sufocante. Uma sombra projetou-se sobre minha maca. Lívia estava ali, impecável.
— Você parece um lixo, Kaelen — ela disse, a voz desprovida do escárnio habitual, substituída por uma urgência gélida. — Os Guardiões estão vindo auditar sua ala. Você é um erro que será descartado até o amanhecer.
Kaelen forçou um sorriso, a dor no peito sendo um lembrete constante de sua fragilidade. — Veio me entregar aos inquisidores ou garantir que eu não tenha escondido nenhum outro segredo?
Lívia aproximou-se, baixando o tom. — A escassez de recursos é uma farsa deliberada para manter o controle, e você descobriu a rachadura. Eu não quero te destruir, Kaelen. Eu quero o que você viu na câmara de drenagem. Trabalhe para mim, e a auditoria dos Guardiões desaparecerá. O teto de vidro da Academia está rachando, e eu pretendo ser quem vai segurá-lo enquanto você o quebra.