Leilão de Segredos
O ar no 47º andar estava viciado, saturado com o cheiro metálico de ozônio e a podridão de uma dívida iminente. Kaelen sentiu uma pontada aguda no centro do peito — o 'Fogo de Escória' não era um presente, era um empréstimo cobrado com juros de carne e osso. Ele tentou acessar o terminal de cura do corredor, mas a tela projetou um holograma vermelho: Acesso Restrito – Sanção Administrativa por Dívida de Manutenção. Lívia não tinha apenas vencido na Arena; ela tinha trancado a porta da sua sobrevivência. Sem a solução estabilizadora, a energia acumulada de 112 pontos começaria a corroer seus meridianos em seis dias. A Academia não precisava expulsá-lo; eles apenas esperavam que ele implodisse por dentro sob a pressão de sua própria ambição.
— O dispensador está morto, Kaelen. Ela cortou sua linha de suprimento, não sua esperança — a voz de Mestre Vane ecoou vinda das sombras, atrás de uma coluna de ventilação. O mentor parecia mais decadente do que nunca, seus dedos tamborilando em uma maleta de couro gasta. — Se eu não estabilizar esse núcleo até a inspeção, serei despejado para os níveis inferiores. Vane, você não apareceu aqui apenas para assistir à minha falência.
— Não — respondeu Vane, entregando-lhe um convite selado em cera negra. — O leilão de alta classe do 50º andar acontece hoje. A elite da Academia negocia artefatos, mas o que você precisa não está na vitrine. Procure pelo lote 42. É um mapa de manutenção. Para a maioria, lixo industrial. Para você, é a chave para a câmara de drenagem. Se conseguir o mapa, teremos a alavanca que precisamos para dobrar os Guardiões.
O ar no 50º andar era rarefeito, perfumado com o luxo inalcançável dos herdeiros da torre. Kaelen ajustou o colarinho surrado, sentindo o peso do seu núcleo instável. Lívia estava lá, no centro do salão, cercada por uma aura de perfeição inatingível. Ela não olhou para ele, mas seus olhos, através do reflexo de uma vitrine de cristais, encontraram os dele com uma frieza calculada. O leiloeiro apresentou o item 42: uma relíquia de cura menor. Kaelen sentiu o estômago revirar. O item era inútil para ele — seus canais estavam bloqueados — mas era a isca perfeita.
— Dez créditos de essência — anunciou Kaelen.
Lívia sorriu, um gesto que não alcançava seus olhos. — Quinze — disse ela, sem nem olhar para o artefato. O jogo começou. Kaelen subiu para vinte. Ela respondeu prontamente. A cada lance, ele fingia frustração, deixando o suor frio escorrer pelas costas enquanto ela se fixava no artefato, acreditando que ele estava tentando desesperadamente curar-se. Com o último lance, ela o superou por uma margem humilhante, mas, ao ver o desdém dela, Kaelen sorriu. Ele havia deixado que ela comprasse a cura falsa, enquanto ele garantia o lote 42 por um valor irrisório, escondido sob o nome de um dos prestadores de serviço de Vane.
Horas depois, Kaelen rastejava pelas condutas de ventilação, guiado pelo mapa. O gosto metálico de ozônio e ferrugem impregnava sua garganta. A cada movimento, o selo de contenção que ele forçara ameaçava ceder, enviando pontadas de dor que ele engolia em silêncio. Ele alcançou o ponto de observação diretamente acima da Câmara de Drenagem Central e removeu a grade. Abaixo, o espetáculo era grotesco. A câmara não era um centro de pesquisa; era um dreno industrial. Feixes de energia pura, extraídos diretamente do cultivo dos alunos — incluindo seu próprio esforço na Arena — eram sugados por tubulações de obsidiana e redirecionados para as residências dos Guardiões e dos níveis superiores.
O mapa de ventilação não levava a um tesouro, mas ao coração da máquina que roubava o futuro da cidade. Kaelen estendeu a mão para tocar a válvula de desvio, sentindo o poder bruto da torre vibrar sob sua pele. De repente, a luz do andar proibido se apagou. O silêncio foi cortado pelo som metálico de botas pesadas ecoando nos dutos. Kaelen estava preso na escuridão total, com os Guardiões a poucos metros de distância, e seu núcleo, agora instável, começou a brilhar através de sua túnica como um farol de traição.