O Banquete da Vingança
O ar no Restaurante Valente não trazia o aroma de especiarias, mas o cheiro metálico de uma guilhotina pronta para cair. Arthur ajustou o avental branco — uma máscara de invisibilidade que, agora, pesava como a insígnia de um juiz. Atrás dele, Dona Helena observava o salão com as mãos trêmulas, segurando o registro contábil que selava o destino de cada convidado.
— Eles acham que vêm para um banquete de encerramento, Arthur — sussurrou a matriarca. — Acreditam que você é apenas o cozinheiro que sobreviveu aos restos.
— Eles estão certos sobre o cozinheiro, Helena — Arthur respondeu, sem desviar o olhar do prato que finalizava. — Mas esqueceram que quem controla a cozinha controla o que é digerido. Hoje, o menu é a verdade.
Alberto foi o primeiro a cruzar o salão. O mentor traidor caminhava com a arrogância de quem ainda acreditava possuir o tabuleiro. Seus olhos astutos fixaram-se na cicatriz no antebraço de Arthur enquanto ele se aproximava da mesa central, cercado pela elite que, meses antes, rira enquanto os Valente perdiam tudo.
— Você está jogando um jogo perigoso, garoto — sibilou Alberto, parando a centímetros. — Tentar me intimidar com um restaurante falido é um erro de cálculo. Minhas contas podem estar temporariamente bloqueadas, mas minha influência dita o que acontece nesta cidade.
Arthur sorriu, um gesto frio que não alcançou seus olhos. Ele não respondeu; apenas indicou o lugar de honra. O jantar começou em silêncio sepulcral. Arthur movia-se entre as mesas com a precisão de um cirurgião. A cada prato servido, ele depositava um envelope lacrado com o selo real da família. O som do papel contra o linho soava como um tiro. Quando chegou à mesa de Alberto, Arthur pousou o envelope final.
— O serviço está impecável, Arthur — disse Alberto, a voz carregada de uma autoridade que parecia um castelo de cartas prestes a ruir. — Mas o banquete tem um custo. A que horas termina essa encenação?
— O custo, Alberto, é a sua relevância — respondeu Arthur, a voz despida de qualquer traço de obediência. — Abra o envelope. É a conta final do que você extraiu do meu pai por duas décadas.
Arthur caminhou até o centro do salão e acionou um comando. As luzes diminuíram e, na parede de vidro do restaurante, imagens começaram a ser transmitidas ao vivo: documentos de transferências, assinaturas falsificadas e o registro contábil que provava o cativeiro do pai de Arthur. A transmissão não era apenas para os presentes; era um link aberto para os acionistas da Solaris e para os órgãos reguladores.
Alberto empalideceu, o vinho em seu copo tremendo. Ele tentou se levantar, mas a mão de Arthur, firme como aço, pressionou seu ombro contra a cadeira.
— O avental é a minha armadura, Alberto. E você a subestimou por anos — declarou Arthur. Ao redor, os convidados, em pânico, afastavam-se de Alberto, percebendo que a associação com ele era agora uma sentença de morte social.
Arthur entregou-lhe o registro encadernado em couro gasto.
— Aqui está a sua vida. Cada suborno, cada dia que você manteve meu pai escondido na zona rural. A polícia já recebeu a cópia digital. O leilão que você planejou morreu aqui, junto com a sua honra.
Alberto olhou ao redor e viu o vazio. Estava isolado, despojado de seu poder. Arthur virou-se para a porta, pronto para o último passo: o resgate de seu pai, deixando o mentor em desgraça total enquanto o banquete, agora um funeral para a antiga elite, atingia seu ápice de caos.