O Tribunal da Elite
A sala de reuniões da Solaris não cheirava mais a poder; cheirava a desespero. Marcos Viana, o homem que até o pôr do sol ditara o destino de metade dos imóveis da cidade, estava encolhido em sua própria cadeira, um espantalho em um terno de três mil dólares. Arthur, o homem que ele chamara de servo, ocupava a cabeceira com a imobilidade de uma estátua de granito.
— A assinatura é irrevogável, Marcos — a voz de Arthur era um corte seco no silêncio da sala. — O conselho já foi notificado. A Solaris não é mais um instrumento de pilhagem. É uma dívida que você pagará com cada ativo restante.
Viana tentou se levantar, a mão trêmula tateando o celular em busca de um salvador que não viria. — Você não entende, Valente. Existem forças acima de mim, pessoas que não aceitarão essa transferência. Você está comprando uma sentença de morte, não uma empresa.
Arthur deslizou uma pasta de couro sobre a mesa. Dentro, não havia apenas os documentos da cessão, mas as provas fotográficas e contábeis que ligavam Viana a cada transação fraudulenta realizada no restaurante da família. — Deixe as ameaças para quem ainda tem poder para cumpri-las — Arthur respondeu, inclinando-se para a frente. — Você é um peão descartável. A estrutura que você serve é a próxima a cair.
Horas depois, no Restaurante Valente, o ar estava saturado com o cheiro de madeira antiga e a eletricidade de um legado sendo retomado. Os gerentes impostos por Viana, homens de olhar furtivo, tentaram manter a pose, mas a notícia da queda do magnata na gala da Solaris já havia se espalhado. Arthur caminhou pelo salão, seus passos ressoando como sentenças sobre o assoalho que o usurpador tentara apagar.
— Vocês não deveriam estar aqui — disse Arthur. Ele retirou do bolso interno o selo real da família, uma peça de metal frio gravada com o dragão que outrora governara a economia daquela metrópole. Ao bater o selo sobre o livro de registros de Viana, o som metálico silenciou as objeções do gerente Siqueira. Aquele documento não era apenas papel; era a prova absoluta de que a venda fora forjada. O restaurante era, oficialmente, território dos Valente novamente.
Dona Helena aproximou-se, as mãos trêmulas ocultas sob o avental. Ela carregava um tomo com a capa de couro puída, o registro contábil final que Viana, em sua arrogância, nunca decifrara. — Arthur, se você abrir este livro, não haverá retorno à vida simples que construímos — ela sussurrou. — Eles não levaram apenas o restaurante. Eles levaram o seu pai para um lugar onde a lei da cidade não chega.
Arthur pegou o livro. Ao abrir a página marcada com o selo real, o código de despesas e transferências bancárias revelou-se como coordenadas. A corporação Solaris era apenas uma fachada de lavagem de dinheiro para uma holding superior, sediada em um complexo fortificado na zona rural. O resgate de seu pai não era apenas uma questão de honra; era o próximo alvo de sua guerra.
O sino da entrada soou, um tilintar metálico que fez Dona Helena recuar. Alberto, o mentor que Arthur um dia chamara de mestre, cruzou o umbral. Ele não parecia um invasor; movia-se com a elegância de quem detém as chaves da cidade. Seus olhos, afiados como bisturis, pousaram sobre Arthur com uma frieza calculada.
— Você aprendeu bem a lição, Arthur — disse Alberto, sua voz preenchendo o vazio. — Destruir Viana foi um exercício de precisão. Mas você esqueceu que, no xadrez, até o rei mais astuto é apenas uma peça no tabuleiro de alguém maior. — Alberto parou, seus olhos fixando-se no antebraço de Arthur, onde a manga do paletó subira, revelando a cicatriz de combate de sua linhagem. O mentor sorriu, um gesto que prometia fogo. — O jogo está apenas começando.